No Brasil, as discussões sobre a redução da carga horária de trabalho estão em andamento no Congresso Nacional desde abril de 2026. Essa mudança propõe o fim do sistema de seis dias trabalhados seguidos por um dia de descanso, conhecido como 6×1, e tem gerado atenção entre acadêmicos sobre suas potenciais repercussões econômicas.
Por um lado, pesquisas realizadas por confederações patronais preveem uma queda no Produto Interno Bruto (PIB) e um aumento nas taxas de inflação.
Em contraste, estudos conduzidos pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) sugerem que os efeitos seriam limitados a alguns setores específicos, com a possibilidade de criação de novos postos de trabalho e até mesmo um crescimento do PIB.
A economista Marilane Teixeira, da Unicamp, argumenta que as divergências entre os estudos sobre os impactos econômicos da diminuição da jornada são resultado não apenas de análises técnicas, mas também políticas.
“A literatura econômica que aborda essa temática muitas vezes se baseia em modelos que presumem que qualquer redução nas horas trabalhadas automaticamente resultará na diminuição da produção e da renda, desconsiderando ajustes dinâmicos que historicamente ocorrem no mercado de trabalho”, ressalta.
Marilene, integrante do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesite), afirma que a resistência dos empregadores à diminuição da jornada pode levar a previsões pessimistas. “Os empregadores normalmente analisam mudanças sob a perspectiva do seu próprio negócio, ignorando os benefícios que isso pode trazer para a sociedade como um todo”, conclui.
Previsões
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima uma perda de R$ 76 bilhões no PIB brasileiro (equivalente a -0,7%) caso a jornada seja reduzida das atuais 44 horas para 40 horas semanais. Para o setor industrial, essa queda seria ainda mais acentuada, alcançando 1,2%.
“A nossa indústria perderá espaço tanto no mercado interno quanto no externo devido à queda nas exportações e ao aumento das importações”, enfatiza Ricardo Alban, presidente da CNI.
A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), que representa empresários desses segmentos, projeta um aumento nos custos com salários em até 21%. Essa entidade alerta que esse encarecimento poderá ser repassado ao consumidor final em até 13%. Por sua vez, a CNI estima um aumento médio nos preços em torno de 6,2%.
“Sem uma redução nos salários nominais, podemos esperar impactos significativos na lucratividade das empresas comerciais brasileiras”, adverte a CNC.
Custos x benefícios
O Ipea discorda dessas previsões ao afirmar que o aumento nos custos decorrente da diminuição da jornada não ultrapassaria os 10% nos setores mais afetados. Em média, o custo adicional estimado gira em torno de 7,8%.
No entanto, levando em consideração os gastos totais das empresas, o impacto varia entre 1%, nos setores como comércio e indústria, até 6,6%, especialmente na área de vigilância e segurança.
“Os dados demonstram que a maioria dos setores produtivos tem capacidade para absorver aumentos nos custos trabalhistas; embora algumas áreas exijam uma atenção mais cuidadosa”, informa o estudo do Ipea.
Entretanto, pequenas empresas com até nove funcionários – responsáveis por cerca de 25% dos empregos formais – podem precisar de auxílio governamental para se adaptar à nova carga horária.
Felipe Pateo, um dos autores do estudo do Ipea, critica o levantamento da CNC por não esclarecer como chegou à previsão de um aumento de 21% nos custos trabalhistas. “Matematicamente falando, é impossível esse aumento ser superior a 10%, considerando apenas as horas perdidas pelos trabalhadores”, explica.
A Agência Brasil tentou entrar em contato com a CNC para discutir as diferenças apresentadas nas pesquisas mas não obteve resposta antes da conclusão desta matéria.
Inflação dos preços
A elevação dos preços associada ao término do regime 6×1 é uma preocupação central nas análises das organizações empresariais como CNC e CNI. Elas alegam que os aumentos nos custos laborais serão repassados aos consumidores finais.
Marcelo Azevedo, economista da CNI, observa que a necessidade de contratar mais empregados acarretará elevações nos custos totais. “Com o aumento do valor do salário-hora haverá incremento nos gastos. Todos os produtos sofrerão reajustes”, afirma.
<pPor outro lado, Felipe Pateo do Ipea acredita que o efeito inflacionário será moderado e lembra que as empresas têm margem para absorver esses aumentos sem transferi-los totalmente aos preços finais. “Se o empresário decidir repassar integralmente essa alta operacional aos preços dos produtos resultará em apenas um acréscimo aproximado de 1%”, comenta Pateo.
A economista Marilane Teixeira também vê baixo risco para uma elevação generalizada nos preços. “Se assim fosse toda vez que houvesse um aumento no salário mínimo teríamos uma inflação exponencial já que este fator impacta amplamente na economia”, compara.
Ela destaca ainda que muitos setores operam com capacidade ociosa e podem aumentar sua produção caso haja pressão na demanda. “A ideia de que pequenos aumentos no custo laboral geram inflação não se sustenta quando se considera seu impacto total sobre os preços dos produtos”, argumenta Marilane.
A nota técnica do Ipea defende que a redução na jornada terá efeitos semelhantes aos ajustes realizados no salário mínimo e ressalta que previsões relacionadas à diminuição do PIB e desemprego carecem de embasamento histórico consistente no Brasil.
“Aumentos reais do salário mínimo registrados ao longo dos anos não resultaram em perdas significativas na criação de empregos”, afirma a nota técnica emitida pelo Ipea.
Divergências
A discrepância entre as diferentes pesquisas está atrelada às variadas premissas utilizadas ao calcular os impactos sobre PIB e inflação. O estudo da Unicamp sugere que a redução semanal incentivará maiores contratações. Por outro lado, o levantamento da CNI acredita que menos horas trabalhadas levarão à diminuição na produção total.
Marcelo Azevedo esclarece que as projeções feitas pelas entidades são simplificações da realidade econômica e dependem das hipóteses definidas para prever os efeitos das mudanças propostas. “É perfeitamente aceitável assumir diferentes cenários; isso resulta nas visões distintas observadas atualmente”, pondera Azevedo.
Marilene reforça que essas divergências não são fruto de manipulação das informações disponíveis. É possível chegar a conclusões diferentes utilizando os mesmos dados devido às diversas perspectivas políticas e sociais adotadas pelos pesquisadores ao analisar contextos específicos.”
“Esse é um conflito distributivo; há uma disputa sobre como dividir lucros e rendimentos entre trabalho e consumo”, completou ela.
Produtividade
A pesquisa realizada pela CNI sugere que reduzir as horas trabalhadas comprometerá a competitividade empresarial. De acordo com seus resultados é improvável uma melhora significativa na produtividade capaz de compensar essa diminuição na carga horária laboral.
Um aumento na produtividade permitiria produzir mais em menos tempo. “Infelizmente temos enfrentado uma estagnação prolongada nesse aspecto; nossa produtividade permanece baixa quando comparada à internacional”, lamenta Azevedo ao comentar a atual situação econômica brasileira.
No entanto, Marilane Teixeira refuta essa ideia ao afirmar que mesmo diante das jornadas longas vigentes atualmente ainda observamos baixa produtividade. “Portanto não é apenas uma questão vinculada às horas trabalhadas; talvez até mesmo uma redução possa resultar numa melhoria nesse aspecto devido ao maior descanso proporcionado aos trabalhadores”, conclui ela.
Felipe Pateo argumenta ainda sobre as múltiplas possibilidades disponíveis para adaptação por parte das empresas frente à nova jornada estabelecida; portanto não se deve prever antecipadamente uma recessão econômica como consequência dessa mudança.”
“Horas liberadas podem gerar maior produção ou consumo em outras atividades durante o tempo livre”, finaliza Pateo ao destacar aspectos positivos dessa proposta.”
Evolução histórica
A Constituição brasileira promulgada em 1988 reduziu oficialmente a carga horária semanal estipulando-a em 44 horas. Um estudo realizado em 2002 por economistas da PUC Rio e USP concluiu não haver efeitos negativos significativos sobre níveis empregatícios após essa alteração legal.”
“As mudanças ocorridas naquela época não aumentaram as chances dos trabalhadores afetados perderem seus empregos nem reduziram suas probabilidades de permanecer ativos no mercado após um ano”, relata este estudo.”
No entanto Marcelo Azevedo questiona essa comparação entre as reduções históricas porque acredita que o cenário econômico atual difere radicalmente daquele período anterior: “Naquele tempo tínhamos uma economia mais fechada sem globalização ou comércio eletrônico; absorver custos naquele cenário era bem diferente”, argumenta Azevedo.”
