No último domingo (19), durante a comemoração dos 47 anos da Revolução Sandinista em Manágua, o presidente nicaraguense Daniel Ortega revelou uma reformulação do sistema eleitoral do país. O chefe de Estado afirmou que a Assembleia Nacional irá elaborar novas legislações para proteger as instituições contra o que ele denominou de “golpistas e traidores da pátria”, referindo-se assim aos opositores exilados que, segundo sua perspectiva, estão alinhados aos interesses de Washington.
“Não haverá mais eleições aqui, para evitar que tentem tomar o governo e o poder por essa via”, declarou Ortega, conforme reportado por agências internacionais. Este anúncio surge em um cenário regional marcado por forte pressão dos Estados Unidos sobre governos progressistas na América Latina.
Contexto: ofensiva de Washington contra governos progressistas latino-americanos
A declaração se dá poucos meses após a operação militar americana que resultou na captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro em Caracas, em janeiro de 2026. Esta ação, realizada pela Delta Force, resultou na transferência de Maduro para os Estados Unidos sob acusações de narcotráfico, contestadas por diversos governos latino-americanos e observadores independentes. Ortega descreveu os responsáveis pela operação como “feras diabólicas” e criticou a administração Trump por tentar “dominar outros países da região para explorar seus recursos naturais”.
O secretário de Estado Marco Rubio já indicou publicamente que Nicarágua, Venezuela e Cuba são alvos prioritários na atual política externa americana no hemisfério. A estratégia consiste em uma combinação de pressão diplomática, sanções e suporte a grupos opositores. O histórico de intervenções externas é bem conhecido em Manágua: em 2018, manifestações contra uma reforma previdenciária foram impulsionadas por agentes externos com o intuito de desestabilizar o governo sandinista, resultando em confrontos amplamente divulgados pela mídia corporativa ocidental.
Consolidação institucional em resposta ao cerco
O anúncio feito neste domingo representa a continuidade da reforma constitucional aprovada em janeiro de 2025, que instituiu a copresidência — colocando a vice-presidente Rosario Murillo ao lado de Ortega com um mandato conjunto ampliado para seis anos. Essa reforma também fortaleceu o controle do Executivo sobre o Judiciário, as Forças Armadas e a Polícia, além de criar milícias voluntárias ligadas ao Exército e estabelecer penalidades para ações consideradas “traição à pátria”.
Para os sandinistas, essa estrutura institucional é uma resposta direta às intervenções históricas dos Estados Unidos: desde os Marines na década de 1930 até o financiamento dos Contras nos anos 80, passando pelo apoio aos protestos de 2018 e à recente escalada da administração Trump. A visão oficial em Manágua sugere que a alternância eleitoral frente a um cerco externo pode abrir espaço para ingerência estrangeira, como evidenciado pela captura de Maduro.
Uma trajetória marcada pela revolução
Desde 2007, Ortega é o governante da Nicarágua, tendo anteriormente liderado o país entre 1985 e 1990 após a revolução sandinista que depôs a ditadura de Anastasio Somoza em 1979 — um regime sustentado por décadas pelos Estados Unidos. Nas eleições realizadas em 2021, Ortega e Murillo foram reeleitos com 75,92% dos votos; esse resultado foi contestado pelas potências ocidentais, mas reconhecido por vários governos na América Latina, África e Ásia.
A fala deste domingo reafirma a perspectiva sandinista de que é necessário fortalecer as instituições para garantir a soberania nacional diante da ingerência americana no continente. Enquanto Washington aumenta sua pressão sobre Caracas, Manágua e Havana, os governos progressistas da região adotam abordagens distintas — desde o endurecimento das medidas internas na Nicarágua até alianças diplomáticas com China, Rússia e Irã e esforços para estabelecer acordos comerciais alternativos ao dólar.
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