Em 2026, o real brasileiro se destaca como uma das moedas emergentes que mais ganhou valor em relação ao dólar, impulsionado por uma dinâmica estrutural mais abrangente do que qualquer política econômica local específica. Nos últimos 18 meses, a moeda americana viu seu valor cair em mais de 10% frente a outras moedas globais. Essa análise foi apresentada pelo banco Citi em um relatório sobre as perspectivas econômicas, que ressalta a combinação do dólar fraco com os altos preços das commodities como fatores positivos para as economias da América Latina.
Um fenômeno regional e não uma vitória isolada do Brasil
Ernesto Revilla, economista-chefe do Citi para a América Latina, afirmou que a desvalorização do dólar representa “um vento favorável para nossas economias”, um impulso de valorização que ele acredita que continuará pelos próximos 12 a 18 meses. É essencial destacar que o real não é o único destaque nesse contexto: a moeda colombiana lidera entre as divisas latino-americanas em 2026, com uma valorização de 14,60%, seguida pelo colón da Costa Rica (10,17%) e pelo guarani paraguaio (8,58%). O real ocupa a quinta posição com um aumento de 6,95%, superando o peso mexicano (2,64%), mas ficando atrás de outras moedas de economias menores. Em contrapartida, moedas como o peso uruguaio, peso chileno, peso argentino, lempira hondurenha e sol peruano enfrentaram desvalorização.
A utilização política dos dados
Nesta segunda-feira (13), José Guimarães, ministro-chefe da Secretaria de Relações Institucionais da Presidência, celebrou publicamente a valorização do real, afirmando em suas redes sociais que “o Real foi a moeda que mais se valorizou frente ao dólar em 2026”. Ele também relacionou essa valorização à posição do Brasil como o segundo maior receptor de investimentos produtivos internacionais entre os países emergentes, superado apenas pela China. No entanto, é importante considerar cuidadosamente sua afirmação de que o real “mais valorizou”: conforme os dados apresentados pelo Citi, o real está atrás de pelo menos quatro outras moedas da região neste ano. Embora isso não diminua a realidade de sua valorização significativa, classificar o real como “a moeda que mais se valorizou” depende do critério e período específicos considerados.
O significado da valorização do real — aspectos positivos e negativos
É preciso entender o mecanismo por trás do entusiasmo governamental. Um real fortalecido tende a reduzir os custos das importações, ajudando a controlar a inflação em itens sensíveis como combustíveis e alimentos — resultando em um aumento no poder aquisitivo tanto para famílias quanto para empresas. Essa dinâmica pode ajudar a explicar por que o IPCA de junho apresentou uma queda inesperada nas expectativas de inflação, conforme evidenciado em análises recentes sobre o desempenho da bolsa brasileira.
No entanto, essa mesma valorização torna as exportações brasileiras mais caras no mercado internacional: produtos brasileiros ficam menos competitivos quando medidos em dólares. Isso representa um desafio significativo para setores como agronegócio e indústria que recebem menos reais por cada dólar vendido no exterior. Esse fenômeno já foi observado na análise da Anfavea sobre o setor automotivo: enquanto o mercado interno demonstra aquecimento, as exportações enfrentam dificuldades e um câmbio valorizado tende a intensificar essa situação.
Uma vantagem temporária e não construída
O elemento central dessa situação é que a apreciação do real depende substancialmente de fatores externos ao Brasil: a fraqueza global do dólar e os altos preços das commodities — influenciados parcialmente pela guerra entre Estados Unidos e Irã. Como já discutido em análises anteriores sobre as revisões do FMI quanto ao crescimento brasileiro, esse cenário tende a favorecer economias exportadoras de petróleo e alimentos como é o caso do Brasil.
Embora seja uma vantagem palpável, ela é derivada de um contexto internacional instável — que pode mudar rapidamente caso ocorra uma recuperação na força do dólar global ou se o conflito no Oriente Médio for resolvido antes do previsto. Isso poderia encerrar o “vento favorável” que atualmente alimenta parte do otimismo cambial manifestado pelo governo.

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