Uma nova pesquisa realizada pelo Ipsos-Ipec, divulgada nesta segunda-feira, 22 de junho, no portal G1, revela uma tendência que desafia a polarização usual entre as opiniões extremas sobre o governo federal. O número de brasileiros que consideram a administração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva como regular subiu quatro pontos percentuais desde março, alcançando 28%. Esse grupo se torna o maior segmento de eleitores em disputa para as eleições de 2026.
Os dados obtidos entre os dias 13 e 17 de junho indicam que 38% dos participantes veem o governo como ruim ou péssimo, enquanto 32% fazem uma avaliação positiva, considerando-o ótimo ou bom. A diferença de seis pontos entre aprovação e desaprovação permaneceu dentro da margem de erro de dois pontos percentuais em relação a março, quando os índices eram 40% e 36%, respectivamente. Essa estabilidade nas avaliações extremas contrasta com o crescimento mais notável do grupo que considera a gestão regular, que passou de 24% para 28%.
Esse aumento não deve ser ignorado. Em um contexto onde a margem de erro se mantém constante, essa migração de quatro pontos para a categoria regular sugere que eleitores que antes rejeitavam ou apoiavam intensamente o governo estão revisitando suas opiniões. Esse fenômeno acontece em um cenário econômico misto, marcado por inflação controlada e taxas de juros ainda elevadas, enquanto o governo busca consolidar sua narrativa sobre a recuperação econômica e o fortalecimento das políticas sociais.
A pesquisa abrangeu eleitores de todas as regiões do Brasil, e os dados sobre aqueles que avaliam a gestão como regular incluem desde cidadãos de baixa renda, beneficiários diretos de programas de transferência, até classes médias urbanas mais suscetíveis às flutuações nos preços e à percepção sobre segurança pública. Essa diversidade transforma os 28% em um grupo volátil, atraente tanto para o Palácio do Planalto quanto para a oposição bolsonarista, que já está articulando novas candidaturas diante da inelegibilidade de Jair Bolsonaro.
Embora a pesquisa não analise intenções de voto diretamente, as avaliações sobre o governo funcionam como um termômetro indireto do sentimento do eleitorado com poucos meses para o início oficial da campanha. Em eleições anteriores, uma avaliação regular acima de 25% foi um bom indicador da mobilidade eleitoral: em 2014 e 2018, esse bloco sinalizou uma alta elasticidade do voto e resultados surpreendentes nas urnas, incluindo vitórias de candidatos que não lideravam as pesquisas um ano antes da eleição.
Para Lula, essa movimentação apresenta uma mensagem ambivalente. A leve redução na rejeição — passando de 40% para 38% — representa um pequeno avanço, mas interrompe uma tendência negativa observada desde o segundo semestre de 2025. O presidente conta com um núcleo sólido de aprovação superior a 30%, concentrado principalmente no Nordeste e entre eleitores com menor renda; no entanto, o aumento na avaliação regular sugere que a recuperação precisa ir além das comparações com administrações passadas e se fundamentar em resultados concretos como geração de empregos qualificados e controle do custo de vida.
No campo oposicionista, esse crescimento do centro moderado também traz desafios. A estratégia atual de radicalização pode manter mobilizada a base bolsonarista, mas tende a afastar aqueles eleitores que passaram ao campo regular por estarem cansados da polarização. Pré-candidatos testados para as eleições de 2026 como Tarcísio de Freitas e Ronaldo Caiado precisarão ajustar seu discurso para não alienar essa parte crucial do eleitorado que avalia o governo Lula com neutralidade e pode inclinar-se para qualquer lado dependendo das circunstâncias nos próximos meses.
A série histórica do Ipsos-Ipec aponta que avaliações regulares tendem a crescer em períodos econômicos transitórios quando as pessoas percebem melhoras ainda não refletidas em suas finanças pessoais. O desafio do governo agora é converter esses eleitores em apoio positivo antes que as preferências sejam congeladas pelo calendário eleitoral — algo comum após o primeiro turno dos debates e campanhas publicitárias no segundo semestre de 2026.
O estudo também levanta preocupações no Congresso Nacional, onde a base aliada enfrenta dificuldades na aprovação de medidas fiscais e reformas estruturais. Parlamentares do centrão observam pesquisas desse tipo para calibrar seu grau de apoio ao Planalto; um bloco regular forte pode ser interpretado como um sinal verde para manter uma distância segura do governo ao apostar na ambivalência do eleitorado.
A governadora Fátima Bezerra, do Rio Grande do Norte e integrante do núcleo político petista, comentou discretamente que o aumento na avaliação regular é um chamado à modéstia: é necessário melhorar a comunicação sobre as entregas realizadas pelo governo e evitar triunfalismos prematuros nas áreas sensíveis como saúde e segurança. Essa análise ressoa entre setores do Ministério da Fazenda que pressionam por resultados fiscais sem comprometer investimentos públicos essenciais para conquistar aquele eleitor moderado que oscila entre expectativas otimistas e frustrações.
Os atuais 28% dos entrevistados que consideram o governo como regular representam efetivamente um campo crucial na disputa eleitoral em 2026. Sem paixão nem aversão clara. A luta por esse eleitorado será determinante para saber se Lula conseguirá sua reeleição ou se a oposição encontrará uma rota viável para retornar ao Palácio do Planalto. Até lá, cada ponto percentual ganho ou perdido nessa faixa terá mais peso do que as divisões polarizadas frequentemente destacadas nas manchetes.

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