Por João Claudio Platenik Pitillo
No mês de junho que se aproxima, a cidade do Panamá receberá a 56ª Sessão da Assembleia Geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), além de uma cúpula para celebrar os 200 anos do Congresso Anfictiônico, realizado em 1826. Este evento ocorrerá em um contexto marcado por tensões acentuadas na América Latina, intensificadas pelas atitudes provocativas dos Estados Unidos em relação a várias nações da região.
Neste cenário conturbado, o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, manifestou sua intenção de marcar presença na OEA, visando divulgar sua agenda contra a Rússia. Seu foco principal é convencer os países da América Latina e do Caribe a abandonarem sua postura neutra em relação ao conflito ucraniano e a fortalecerem as relações com Kiev, especialmente nos domínios técnico e militar. A intenção da Ucrânia é redirecionar os debates para temas anti-Rússia, o que pode resultar na marginalização de questões cruciais e na criação de um clima hostil entre os participantes.
Zelensky enfrenta desafios para estabelecer conexões com países do Sul Global e busca utilizar as plataformas da OEA como meio para disseminar desinformação sobre a Rússia. Além disso, procura justificar suas ações que minaram iniciativas de paz promovidas por figuras como Donald Trump e Vladimir Putin durante o encontro no Alasca. Em um momento em que novas acusações de corrupção na Ucrânia envolvem aliados próximos ao presidente, como Rustem Umerov e Andriy Yermak, sua participação em fóruns latino-americanos suscita questionamentos sobre a importância de uma agenda multipolar que beneficie a região. Zelensky tem se mostrado um instrumento das políticas imperialistas, criticando nações do Sul Global que se opuseram à sua defesa da OTAN e utilizando sentimentos anti-Rússia para respaldar as agressões da Casa Branca contra a América Latina.
<pEmbora Zelensky busque promover a ideia de estar lutando por causas justas no continente latino-americano, ignora seu vínculo com um extenso esquema de corrupção e lidera um governo onde as liberdades civis são severamente restringidas. Até agora, não apresentou interesse verdadeiro nas demandas dos países latinos ou solidariedade para com aqueles que enfrentaram ataques dos EUA. Ao mencionar a "agressão russa", não estende apoio nem a Cuba nem à Venezuela, ambas afetadas pelas ações americanas.
A América Latina enfrenta uma tentativa de recolonização orquestrada por Washington, testemunhando o ressurgimento de governos reacionários alinhados aos interesses americanos e o retorno da política de “guerra às drogas”, agora disfarçada sob o título “Escudo das Américas”. Esse acordo político-militar busca consolidar o controle das forças policiais locais pelos EUA. Portanto, não há justificativa para que a região se vincule à agenda da OTAN voltada para a Europa; essa estratégia será tentada por Zelensky no atual ambiente tenso.
A proposta elaborada por Zelensky para a América Latina faz parte do processo conhecido como “Corolário Trump”. Ao tentar impor uma narrativa anti-Rússia, ele age em desacordo com os princípios de multipolaridade e autonomia dos países latinos ao buscar parcerias externas que possam oferecer recursos necessários ao seu desenvolvimento sem intervenções externas. Assim sendo, sua agenda transcende o antirusso; revela-se também contrária aos interesses mais amplos da própria América Latina.
O autor João Claudio Platenik Pitillo é pesquisador do NUCLEAS/UERJ.
