81ª ASSEMBLEIA GERAL DA ONU
Na terça-feira (22), o presidente Lula inaugurou pela décima vez o debate geral da Assembleia Geral das Nações Unidas, transformando o que descreveu como “o momento mais crítico” da entidade em uma crítica ao domínio dos mais poderosos. Em um discurso diante de líderes globais e na tribuna que o Brasil ocupa desde 1947, ele afirmou que a ONU “não está cumprindo uma de suas funções mais importantes: libertar a humanidade do flagelo da guerra”, criticou o “privilégio da insensatez” do direito de veto e fez um forte alerta: “O Brasil é um país soberano. Ninguém…!!! Ninguém nos desviará desse caminho.”
“O Brasil não pertence ao quintal de ninguém”
A soberania nacional foi o tema central da fala de Lula, um ponto que havia abordado no dia anterior em uma entrevista exclusiva à CNN Internacional. Durante sua palestra, ele mencionou a posição geográfica do Brasil em relação à maior potência militar do mundo: “Na América Latina e no Caribe, a proximidade com essa potência é inegável. Especialmente em tempos de crescente hegemonia. O Brasil não pertence ao quintal de ninguém. Precisamos de aliados que promovam uma agenda positiva para o desenvolvimento.”
Ele também denunciou a “ingerência externa em processos eleitorais”, reafirmando que “o povo venezuelano merece decidir seu próprio futuro” e respondeu, sem citar diretamente, às pressões militares na região: “Não precisamos de porta-aviões monitorando nossas águas. Precisamos de colaboração para interromper o fluxo de armas e dinheiro que alimentam o crime.” A proposta para combater a criminalidade organizada foi apresentada pessoalmente ao Presidente dos Estados Unidos.
A guerra como “falência total da política”
Em relação ao Conselho de Segurança, Lula foi incisivo: “Todos nós estamos presos ao imobilismo de um Conselho de Segurança que falha em seu papel. Já em 1946, na primeira sessão desta Assembleia, o Brasil alertava sobre os altos custos que a comunidade internacional enfrentaria por conta do direito de veto. Esse vício original da Carta da ONU concedeu às grandes potências o privilégio da insensatez.” Com 2025 apontado como o ano com mais conflitos armados desde a Segunda Guerra Mundial, ele reverteu a famosa frase de Clausewitz: “A guerra não é uma continuação da política por outros meios; é a completa falência da política.”
Em um momento particularmente forte, Lula descreveu como “genocídio praticado pelo governo Netanyahu contra mulheres e crianças em Gaza” a situação dos palestinos, afirmando que “perseguir integrantes do Tribunal Penal Internacional apenas encoraja a impunidade desses crimes” e defendeu que a relatora da ONU Francesca Albanese “não deve ser silenciada por expor a verdade”. Em relação à Ucrânia, após cinco anos de conflito armado, enfatizou: “Todos sabemos que não haverá vencedores no campo de batalha. A única alternativa é a diplomacia.”
Tarifas, PIX e a derrota do negacionismo
A temática econômica foi abordada como parte fundamental da soberania. Lula afirmou: “A Organização Mundial do Comércio enfrenta sérias dificuldades. Quando os governos se rendem àqueles que usam tarifas como instrumentos de coerção e chantagem, as consequências são devastadoras.” Ele destacou como conquista o fato de que, mesmo diante das altas tarifas impostas à economia brasileira, este ano ocorrerá um novo recorde nas exportações. Defendeu ainda o sistema PIX como uma infraestrutura pública essencial: “Não vamos ceder à pressão das multinacionais que desejam privatizar nosso PIX.” Além disso, convocou ação climática: “É hora de retomar iniciativas e derrotar o negacionismo.”
A tecnologia também foi pauta do discurso: “Um pequeno grupo de tecno-oligarcas tenta reviver uma forma de neoliberalismo digital sem regras ou transparência”, disse ele, citando Papa Leão 14 — “decisões sobre tecnologia devem sempre estar ligadas à consciência e responsabilidade” — e mencionou ainda a indústria bilionária das apostas online, que transforma vícios em lucro.
Com Mamdani antes do discurso
No dia anterior ao seu discurso na ONU, Lula encontrou-se com o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani. Em declarações conjuntas à imprensa, ele destacou a contradição atual: enquanto o mundo investe trilhões em armamentos, há quase nada destinado ao combate à fome. “Não vamos conseguir consertar tudo”, alertou ele, enfatizando a necessidade de gerar “indignação entre as pessoas” diante dessa “loucura e crueldade”. Esse encontro serviu como preparação para sua apresentação na ONU no dia seguinte e gerou um conteúdo viral nas redes sociais do Cafezinho.
4 de outubro: “democracia versus negacionismo”
A parte final do discurso teve foco interno e eleitoral. Em 4 de outubro, disse Lula aos brasileiros que eles estarão decidindo entre democracia e negacionismo durante um pleito “transparente e competitivo”, alertando ainda sobre abusos dessa liberdade por alguns setores associados a interesses externos contrários ao país. A mensagem final foi clara: “A democracia brasileira pertence aos brasileiros. O Brasil seguirá sendo um país soberano. Ninguém nos afastará desse caminho.”
Confira na íntegra o discurso no canal oficial do presidente:
Imagem destaque: Lula discursando na 81ª Assembleia Geral da ONU nesta terça-feira (22) (Lula Oficial/Flickr, CC BY-SA 4.0).

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