Exportação de carnes: consumo interno e soberania (Parte 3)

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Seção de carnes de supermercado em São Paulo
Seção de carnes de um supermercado no bairro da Saúde, em São Paulo. O equilíbrio entre abastecimento doméstico e demanda externa se reflete diretamente no custo de vida. (Foto: Wilfredor/Wikimedia Commons, CC0)

Há uma narrativa recorrente segundo a qual o recorde de exportações esvazia a mesa do brasileiro. Os dados do USDA e da OCDE/FAO desmentem essa tese.

O Brasil tem um dos maiores consumos per capita de proteína animal do mundo. Somadas as carnes bovina, de aves e suína, o brasileiro consome em média 98,0 quilos por ano, o segundo maior índice do planeta.

Apenas os Estados Unidos ficam à frente, com 102,5 quilos por habitante. A União Europeia consome 77,0 quilos, a China 71,0 quilos, e a média mundial não passa de 34,5 quilos.

Gráfico 3: Consumo per capita internacional e IPCA
Consumo per capita internacional e os dados oficiais do IPCA de agosto de 2026 divulgados pelo IBGE em 11/09/2026. (Fonte: USDA/OCDE e IBGE. Elaboração: O Cafezinho)

O problema está no preço, não na quantidade. A atratividade do mercado externo, remunerado em dólar, gera uma pressão inevitável sobre o mercado interno, e o IPCA de agosto de 2026, divulgado pelo IBGE nesta sexta-feira, 11 de setembro de 2026,, mostra esse contraste com precisão.

O índice geral de agosto registrou deflação de 0,32%, puxada pela queda da energia elétrica e pelo recuo de 0,61% no grupo Alimentação no Domicílio, beneficiado por safras recordes de grãos e hortaliças. No mesmo mês, o subgrupo Carnes subiu 0,61%, na contramão do resto da cesta.

Indicador (IBGE, 11/09/2026) Variação em agosto de 2026 Leitura
IPCA geral -0,32% Deflação puxada por energia e grãos
Alimentação no domicílio -0,61% Queda em hortaliças, arroz e feijão
Subgrupo Carnes +0,61% Alta puxada pela demanda externa recorde

A alta de 0,61% nas carnes em um mês de deflação de 0,32% ilustra como funciona a paridade de exportação. Quando a arroba do boi gordo é puxada para cima pelos dólares chineses e americanos, os frigoríficos passam a disputar o animal terminado no campo pagando mais caro.

O açougue do bairro e as grandes redes de supermercado competem pela mesma matéria-prima com os portos de Santos e Paranaguá. Mais de 70% da produção de aves e suínos e cerca de 70% da carne bovina ficam no Brasil, mas é o preço pago pela parcela exportada que estabelece o piso de valorização de toda a cadeia.

O desafio do governo federal e do setor produtivo para o ciclo 2026/2027 é manter o ritmo das exportações sem corroer o poder de compra do trabalhador. A resposta não está em restringir embarques, e sim em produzir mais na mesma terra.

O caminho passa pela recuperação dos mais de 30 milhões de hectares de pastagens degradadas previstos no Plano Nacional de Conversão de Pastagens Degradadas. É a única forma de ampliar a oferta de carne sem desmatamento e com a sustentabilidade que o consumidor moderno exige, dentro e fora do país.

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