Exportação de carnes: a anatomia da pauta e a rota geopolítica da carne brasileira (Parte 2)

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Rebanho Nelore em pastagem em Goiás
Rebanho Nelore em Campos Belos (GO). A genética tropical e a disciplina sanitária sustentaram o salto produtivo de duas décadas. (Foto: Carlos Ebert/Wikimedia Commons, CC BY 2.0)

Quando se abre o acumulado recorde de US$ 33,75 bilhões pelo Sistema Harmonizado, a pauta revela dois pilares sólidos e um terceiro em expansão acelerada. A carne bovina e a de aves sustentam quase 80% da receita, e a suína cresce mais rápido do que qualquer outro segmento.

Gráfico 2: Distribuição das exportações por código SH4 e principais compradores
Distribuição das exportações por código SH4 e principais compradores no ciclo 2025/2026. (Fonte: ComexStat/MDIC. Elaboração: O Cafezinho)
Código SH4 Produto Receita Participação Principais destinos (% do item)
0202 Carne bovina congelada US$ 16,59 bi 49,2% China (63,7%), EUA (8,7%), Egito
0207 Carne de aves US$ 9,82 bi 29,1% Japão (11,0%), Arábia Saudita (10,0%), China (9,7%)
0203 Carne suína US$ 3,47 bi 10,3% Filipinas (25,3%), Japão (15,5%), Chile
0201 Carne bovina fresca ou resfriada US$ 2,45 bi 7,3% Chile (29,6%), Argélia (9,3%), Holanda
Outros Miudezas e outras carnes US$ 1,42 bi 4,1% Hong Kong (23,9%), Filipinas (11,0%)

A carne bovina congelada, código 0202, é a joia da coroa, com US$ 16,59 bilhões. Desse total, 63,7% desembarcam nos portos da República Popular da China.

A China virou, na prática, a reguladora do preço do boi gordo no Brasil. A ampliação das habilitações de frigoríficos negociada pelo Ministério da Agricultura e Pecuária junto à Administração Geral de Alfândegas chinesa, a GACC, consolidou o Brasil como fornecedor de mais da metade de toda a carne bovina que os chineses importam.

Os Estados Unidos aparecem em segundo lugar, com 8,7% da carne bovina congelada, mesmo pagando tarifas acima de 26% fora da cota. O dado expõe a dependência da indústria americana de hambúrguer em relação ao produto brasileiro, usado na mistura com a carne local.

A avicultura, código 0207, movimenta US$ 9,82 bilhões e segue uma lógica oposta à do boi. Em vez da concentração em um único comprador, o frango brasileiro se espalha por dezenas de mercados, e nenhum deles passa de 11% do total.

O Japão, com 11,0%, exige os padrões técnicos mais rígidos do mundo e cortes desossados de precisão quase artesanal. A Arábia Saudita, com 10,0%, e os Emirados Árabes Unidos ancoram a liderança brasileira no mercado halal, no qual o país é o maior produtor e exportador do planeta.

A China, com 9,7% do frango, compra sobretudo pés, asas e miúdos, cortes de baixo valor no Ocidente e de alto valor na culinária chinesa. Essa complementaridade entre mercados é o que permite ao frigorífico brasileiro vender a ave inteira, e não apenas o peito.

A carne suína, código 0203, rendeu US$ 3,47 bilhões e foi o segmento que mais redesenhou seus compradores depois que a peste suína africana perdeu força na China. As Filipinas se tornaram o maior comprador isolado, com 25,3%, seguidas por Japão, com 15,5%, e Chile.

Essa redistribuição blindou a suinocultura do Sul do país contra as oscilações da demanda chinesa. Os produtores de Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul deixaram de depender de um único cliente e passaram a operar com margens mais estáveis.

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