Para que Lula consiga superar os 1,87 ponto de vantagem de Flávio Bolsonaro, é fundamental que ele aborde questões relacionadas a gás, salários e folgas.
Flávio Bolsonaro encerrou o primeiro turno com uma pequena vantagem de 1,87 ponto em relação a Lula, um intervalo bem menor do que os 5,2 pontos que separaram Lula de Jair Bolsonaro na eleição de 2022. Essa é a disputa mais acirrada desde a redemocratização. Desde 1989, nenhum candidato em segundo lugar conseguiu vencer no segundo turno, e esse é o desafio que Lula deverá vencer até o dia 25 de outubro.
Os assuntos em pauta têm um impacto direto na vida dos trabalhadores. Estão em discussão o aumento do salário-mínimo acima da inflação, um auxílio de R$ 100 a cada dois meses para a compra de botijões de gás e a eliminação da jornada de trabalho 6×1, que consiste em seis dias trabalhados seguidos por um dia de folga.
A colunista Lilian Sendretti argumenta que Flávio avança quando o campo democrático responde a demandas financeiras com soluções morais. Segundo ela, Lula tem potencial para mudar o rumo da eleição se transformar o voto no dia 25 em uma escolha clara entre garantir renda, creches e descanso ou deixar que os trabalhadores arcam com as consequências do governo bolsonarista.
A barreira feminina reduziu de 35 para 10 pontos
As mulheres representam a principal barreira para Lula, e essa barreira está diminuindo. Em julho, metade das eleitoras afirmou ao Datafolha que não votariam em Flávio sob nenhuma circunstância, enquanto Lula liderava entre elas com 50% contra 40%.
No embate contra Jair Bolsonaro, sua vantagem entre as mulheres alcançou 62% a 27% nas eleições de 2022. Contudo, essa diferença encolheu para apenas dez pontos quando se trata do filho.
Cada ponto perdido nesse segmento não pode ser recuperado facilmente, pois geralmente são as mulheres quem gerenciam as finanças familiares no Brasil. Elas são responsáveis por esticar o salário até o final do mês, por faltar ao trabalho quando as creches fecham e por manter a casa durante a pandemia.
Rejeição sem propostas não mobiliza eleitores
O campo democrático passou quatro anos focando na pandemia, nos eventos de 8 de janeiro e nas condições econômicas gerais e ainda assim acabou em desvantagem, resume Sendretti. Números por si só não geram emoções; ter razão não é suficiente para criar identificação.
Apelar à defesa da democracia contra a barbárie funcionou nas eleições passadas, mas pode não ter o mesmo efeito em um eleitorado cansado em 2026. Muitas pessoas optaram por Flávio motivadas pela insatisfação com os preços altos e rotulá-las como golpistas pode ser uma estratégia contraproducente.
A solução reside em adaptar o slogan “Se Flávio vencer, você perde” para diferentes públicos. A diarista que cria seus filhos sozinha precisa ouvir sobre creches e custos do gás; o aposentado vivendo com um salário mínimo precisa ser informado sobre reajustes; e o jovem de 19 anos que ficou fora do primeiro turno deve ouvir sobre jornadas de trabalho.
Flávio já forneceu um alvo ao criticar como oportunista o fim da jornada 6×1. Profissionais como balconistas, caixas de supermercado e frentistas podem ver suas esperanças frustradas quanto à redução dessa carga horária.
No tocante ao salário-mínimo, há um contraste significativo desfavorável ao filho. Durante a administração Jair Bolsonaro (2019-2022), os reajustes acompanharam apenas a inflação oficial e o piso salarial terminou seu mandato fixado em R$ 1.212, sem ganho real ao longo desse período.
Em contrapartida, durante o governo Lula, o salário-mínimo aumentará para R$ 1.518 até 2025, representando uma valorização real acima da inflação acumulada desde 2022. Embora Flávio prometa na campanha um aumento superior à inflação, “o ônus de demonstrar que é diferente recai sobre ele”, observa Sendretti, questionando: “quem arca com esta conta?”
O voto crucial está distante da avenida Paulista
Lula obteve vitória na cidade de São Paulo com uma margem de 46,6% contra 42,1%, mas perdeu no estado por quase quatorze pontos percentuais. Sendretti sintetiza essa situação afirmando: “O voto faltante não reside na avenida Paulista”.
A tradicional composição do eleitorado já não existe mais; as redes sociais agora segmentam os eleitores conforme suas narrativas. A comunicação precisa ser adaptada para cada público e região específica sobre o que cada grupo perderá caso Flávio seja eleito.
É essencial também reconstruir a frente ampla. Na eleição anterior, apenas cinco dias após o primeiro turno, Simone Tebet subiu ao palanque ao lado de Lula prometendo total apoio — uma imagem que trouxe votos aos quais o PT não teria acesso sozinho.
No atual cenário eleitoral para 2026, nenhum candidato eliminado no primeiro turno manifestou apoio a Lula até agora. A coluna sugere uma presença maior de Geraldo Alckmin e Simone Tebet na campanha ressaltando que alianças amplas precisam ser cultivadas em cada eleição.
Sempre segundo a análise apresentada na coluna, uma possível vitória de Flávio poderia resultar na desintegração tanto da frente ampla quanto da direita autônoma no futuro. O trabalhador seria quem pagaria essa conta primeiro.
A contagem regressiva indica que restam apenas treze dias até a votação decisiva; assim sendo, tudo dependerá da questão que cada eleitor levará às urnas. Se essa questão girar em torno dos preços dos botijões de gás, das vagas nas creches ou das folgas aos domingos, talvez seja possível quebrar o tabu estabelecido desde 1989 — afinal Flávio ainda não respondeu quem realmente arcará com esses custos.

Average Rating