Espanha conquista 7 dos 8 lotes em leilão de energia elétrica

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Na última sexta-feira (30), um leilão de concessões para transmissão de energia realizado na Bolsa de Valores (B3) resultou na venda dos oito lotes disponíveis, todos adquiridos por consórcios estrangeiros. Os vencedores aceitaram um deságio médio de 50% em relação à receita projetada. Os contratos, com duração de 30 anos, envolvem um investimento total de R$ 8,9 bilhões para a construção de 1,8 mil quilômetros de linhas e uma capacidade de transformação de 12.694 megavolt-amperes (MVA).

Esse montante impacta diretamente na conta dos consumidores. A receita que as concessionárias obtêm para operar as linhas é repassada aos usuários, sendo incorporada às tarifas da energia elétrica.

Leilão ocorre apesar da instabilidade

O evento se deu em um contexto de instabilidade no mercado financeiro, após a recente eleição, que resultou em quedas na Bolsa e aumento nas taxas de juros. Apesar desse ambiente turbulento, todas as propostas apresentadas foram aceitas, com o deságio médio similar ao observado nas últimas licitações do setor.

Dentre os participantes, a Neoenergia — sob controle da espanhola Iberdrola — e a construtora Cymi conquistaram dois projetos cada uma. A Celeo Redes também arrematou dois lotes, enquanto a Cox, oriunda da antiga Abengoa, e a portuguesa EDP levaram um lote cada uma. O leilão foi organizado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) e detalhado pelo MegaWhat.

Curiosamente, empresas que lideraram licitações anteriores não conseguiram garantir nenhum lote desta vez. A AXIA Energia, que obteve sucesso no leilão realizado em julho, fez propostas com deságios variando entre 3% e 32%, muito abaixo dos mais de 50% registrados no leilão mais recente.

Engie e Alupar também seguiram essa tendência e não conseguiram vencer novas disputas. Por outro lado, empresas como State Grid, Taesa e ISA Energia optaram por não participar do evento. Esse recuo coincide com o aumento das taxas de juros longas após as eleições; até julho elas estavam conquistando lotes consecutivamente.

A influência das taxas de juros nos retornos

No setor de transmissão, vence quem propõe a menor receita anual para implementar e administrar a linha ao longo de três décadas. O deságio alcançado significa que os vencedores receberão apenas metade do valor calculado como referência para os contratos.

As empresas vitoriosas acreditam que o mercado financeiro se estabilizará em um período entre um a dois anos, momento em que precisarão buscar financiamento para os projetos. Um executivo bancário que acompanhou o leilão comentou: “Se as taxas não caírem conforme o esperado, isso pode pressionar os retornos dos projetos”.

Um segundo profissional do setor afirmou que a incerteza momentânea influencia a avaliação dos projetos de forma uniforme. Contudo, ele destacou que a percepção sobre o risco varia entre as companhias e afeta suas propostas durante o leilão.

Analisando pela perspectiva do consumidor final da energia elétrica, essa competição acirrada poderia resultar em tarifas mais baixas. Com os descontos aplicados, a receita garantida pelas concessionárias diminui e teoricamente alivia o custo para os consumidores nos próximos 30 anos.

Investimento seguro com prazo definido

As receitas provenientes da transmissão são estáveis e ajustadas conforme a inflação. Após superados os riscos associados à construção das linhas, o contrato se torna semelhante a um investimento em renda fixa — uma explicação para o interesse mesmo diante dos altos deságios.

Executivos do setor afirmam que empresas com custos menores ou aquelas que possuem sua própria capacidade construtiva são as mais competitivas nesse cenário. As propostas refletem expectativas sobre os custos financeiros pelos próximos 30 anos.

As novas linhas precisam estar operacionais entre três anos e meio e cinco anos após o leilão. É nesse intervalo que as empresas definirão suas apostas sobre as taxas de juros ao procurarem financiamento no mercado.

A quantia investida de R$ 8,9 bilhões será desembolsada pelas empresas antes mesmo do início das receitas. Atrasos nas obras podem postergar lucros e elevar custos financeiros — uma combinação prejudicial para aqueles que fizeram lances agressivos.

A expansão da infraestrutura de transmissão é essencial para conectar novos parques geradores ao sistema interligado nacional. Essas linhas transportam energia das usinas até os centros consumidores, interligando áreas com excesso àquelas com escassez elétrica.

A disputa por esses lotes tende a ser limitada a alguns grupos com capacidade técnica própria, acesso facilitado ao crédito e disposição para grandes empreendimentos. O custo da transmissão é repassado às tarifas pagas por todas as distribuidoras do Brasil.

Com uma oferta abundante em geração elétrica aliada à diminuição dos investimentos em fontes renováveis, a área de transmissão se consolidou como uma das mais ativas no setor elétrico na última década, atraindo investidores internacionais diversificados.

Ainda permanece incerta qual será o custo do capital enfrentado por essas empresas no futuro próximo. Se as taxas longas não diminuírem conforme esperava-se nos lances apresentados, isso poderá impactar negativamente os retornos dentro desses contratos que estarão ativos por três décadas — refletindo eventualmente nas tarifas ou nos atrasos nas obras.

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