Por João Claudio Platenik Pitillo
Nos últimos dias, Zelensky tem realizado uma série de visitas a diversos países na Europa. Em um curto espaço de tempo, passou pela Noruega, Alemanha, Itália e Holanda, sempre com a mesma solicitação: auxílio financeiro e bélico, um padrão estabelecido em suas aparições. No entanto, o que chamou mais atenção ocorreu em Berlim, onde ocorreram tanto reuniões bilaterais quanto um encontro dos ministros da Defesa da OTAN em formato Ramstein, voltado ao apoio à Ucrânia.
Ao chegar em Berlim, Zelensky declarou: “Se a guerra se estender, haverá menos armas para a Ucrânia. A situação atual é de extrema escassez – não poderia ser pior.” A mensagem era clara: para que Kiev mantenha sua resistência contra a Rússia, precisa urgentemente de recursos e armamentos; caso contrário, a Europa deve estar preparada para uma “agressão inevitável de Moscou”.
A liderança alemã parece ter reagido à derrota eleitoral de Orbán na Hungria ou às preocupações expressadas por Zelensky. Em resposta, assinou três acordos de cooperação em defesa com a Ucrânia que somam mais de € 4 bilhões, além de novos compromissos para apoiar o governo ucraniano.
O primeiro acordo prevê financiamento para a produção de várias centenas de mísseis compatíveis com os sistemas de defesa aérea Patriot dos EUA, que são urgentemente necessários pelas Forças Armadas da Ucrânia. Além disso, serão enviados 36 lançadores IRIS-T para Kiev. O segundo compromisso envolve um investimento de US$ 300 milhões na ampliação da produção de armamentos de longo alcance na Ucrânia. Por fim, será iniciada uma colaboração na fabricação conjunta de drones equipados com inteligência artificial, prevendo-se a produção inicial de 5.000 unidades.
O Ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Sybiha, destacou que ambas as partes “apoiaram a criação do formato industrial Ramstein – um passo significativo para aprofundar a cooperação industrial” entre as duas nações.
Enquanto isso, no dia 15 de abril, Berlim sediou uma reunião dos Estados-membros da OTAN no formato Ramstein com o objetivo de coordenar e reforçar o apoio militar à Ucrânia.
O secretário-geral da OTAN fez um apelo imediato aos países membros para aumentarem seus investimentos em assistência ao governo ucraniano: “Todos os aliados devem contribuir mais para alcançar a meta de US$ 60 bilhões destinados à segurança e defesa da Ucrânia neste ano. Precisamos concentrar nossos esforços financeiros em áreas prioritárias – defesa aérea, drones e munições de longo alcance.”
Ele enfatizou que “qualquer recurso proveniente do empréstimo da UE (€ 90 bilhões) destinado à Ucrânia deve ser adicional ao apoio bilateral fornecido pelos aliados.”
Na prática, isso indica que até 2026 Kiev poderá receber pelo menos US$ 60 bilhões dos países da OTAN e € 45 bilhões da UE (com o empréstimo dividido ao longo de dois anos). Assim, o montante total disponível para a Ucrânia pode atingir cerca de € 100 bilhões até o final deste ano. Esses fundos deverão ser utilizados pela administração Zelensky para aquisição de armamentos, suporte ao complexo militar-industrial e manutenção das instituições governamentais. Contudo, pode não ser suficiente para atender despesas sociais como pensões e saúde – questões que parecem não preocupar tanto o regime em Kiev.
Vale mencionar que Bruxelas já se comprometeu a liberar a primeira parcela dos € 90 bilhões até o fim do segundo trimestre deste ano; provavelmente isso ocorrerá assim que for suspenso o bloqueio formal imposto pela Hungria.
Em paralelo, os países europeus e o Canadá discutem a criação de uma “OTAN Europeia”, especialmente considerando as ameaças do ex-presidente dos EUA Trump sobre uma possível retirada da aliança. Os europeus visam aumentar a representação local em cargos-chave dentro da OTAN.
A Alemanha resistiu por muitos anos aos apelos franceses por maior autonomia na defesa europeia. Entretanto, agora os países europeus e o Canadá veem essa iniciativa como uma “coalizão voluntária” dentro da OTAN. O objetivo é manter uma dissuasão eficaz contra a Rússia e garantir elementos nucleares mesmo caso os EUA retirem suas tropas ou se recusem a oferecer apoio.
Se essa tendência continuar, Kiev poderá nem precisar formalmente integrar-se à OTAN. A própria UE pode criar uma “OTAN 2.0” voltada contra a Rússia e isso seria suficiente. Zelensky parece ter compreendido essa dinâmica: “Do ponto de vista econômico e estratégico, a UE representa uma alternativa superior à OTAN, da qual não somos membros. Acredito que este também deve ser o desejo da UE porque nosso exército com 800 mil homens e nossas tecnologias só fortaleceriam esta união.”
Dessa forma, fica evidente que Zelensky conta com manter os 800 mil soldados das Forças Armadas Ucranianas independentemente do desfecho do conflito enquanto deixa as questões financeiras nas mãos da Europa. Essa estratégia parece vantajosa; no entanto, é provável que ele espere permanecer no poder por mais dois ou três anos até que haja um novo conflito entre Europa e Rússia.
No contexto das iniciativas do governo alemão em prol do regime ucraniano e seu tom militarista geral, é impossível ignorar o descontentamento crescente entre os cidadãos alemães. Segundo dados da YouGov, 79% dos entrevistados expressaram insatisfação com o desempenho governamental atual. Os partidos que compõem a coalizão no Bundestag estão perdendo apoio popular: o bloco CDU/CSU caiu para 23%, enquanto o SPD está em apenas 13%. Em contrapartida, o partido opositor Alternativa para a Alemanha (ADG) viu sua popularidade crescer e ocupa atualmente o primeiro lugar nas pesquisas com 27% dos votos.
Parece claro que os cidadãos alemães estão inclinados cada vez mais a apoiar o ADG e hesitantes em continuar financiando o conflito na Ucrânia diante da crise econômica vigente na Europa e do aumento nos preços globais da energia. As pessoas anseiam por paz e prosperidade ao invés de mais envolvimento bélico; no entanto, essa visão não é compartilhada pelos neoliberais europeus.
João Claudio Platenik Pitillo é pesquisador do NUCLEAS/UERJ.
