A manobra encoberta da Fifa: Trump contata Infantino e um cartão vermelho se dissolve no calor do mata-mata

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No último domingo (5), a Copa do Mundo de 2026 protagonizou um dos episódios mais polêmicos da sua história, que não ocorreu dentro das quatro linhas. A Fifa decidiu suspender, por um período de um ano, a aplicação automática da punição que o atacante Folarin Balogun, da seleção dos Estados Unidos, deveria cumprir após ser expulso durante a vitória de sua equipe por 2 a 0 contra a Bósnia e Herzegovina. Com essa decisão, Balogun está liberado para jogar contra a Bélgica nesta segunda-feira (6) em Seattle, nas oitavas de final. Essa mudança aconteceu após uma ligação pessoal do presidente americano, Donald Trump, ao presidente da Fifa, Gianni Infantino, solicitando uma revisão do caso.

O envolvimento de Trump no caso

Balogun, que é o artilheiro da seleção americana durante o torneio, recebeu cartão vermelho na quarta-feira (1º) após uma jogada em que pisou no tornozelo do defensor bósnio Tarik Muharemović. O árbitro considerou a falta como grave após consultar o VAR. Segundo as normas vigentes nas Copas do Mundo, tal expulsão implicaria em suspensão automática para a próxima partida, sem possibilidade de contestação.

Nesse contexto, várias fontes indicam que Trump entrou em contato com Infantino para questionar os motivos da expulsão e suas consequências. Poucos dias depois dessa conversa, a Fifa anunciou sua decisão — um fato inédito desde 1962: pela primeira vez um cartão vermelho em Copa do Mundo não resultaria em uma suspensão efetiva. A entidade se baseou no artigo 27 de seu Código Disciplinar, que concede à comissão disciplinar o poder de suspender uma sanção e colocar o jogador sob condicional esportiva por um tempo determinado.

Trump celebrou o resultado em suas redes sociais: “Obrigado à FIFA por fazer a coisa certa e reverter uma grande injustiça!”.

A indignação da Bélgica e da UEFA

A Federação Real Belga de Futebol expressou forte desapontamento com a decisão da Fifa, considerando-a um retrocesso que fere as próprias regras da entidade. Em comunicado oficial, afirmou estar “astonished” — atônita — com a reversão e argumentou que o artigo 66.4 do Código Disciplinar prevê claramente uma suspensão automática para expulsões — norma aplicada sem exceções aos demais cartões vermelhos recebidos até então no torneio. A federação já obteve permissão para apelar da decisão ao Comitê de Apelação da Fifa.

A UEFA também se manifestou de maneira contundente. A organização europeia criticou fortemente a atuação da Fifa e afirmou que essa mudança representa uma linha vermelha cruzada. Em seu comunicado, destacou que a certeza nas regras é essencial para manter a credibilidade do esporte e ressaltou que a suspensão automática não é uma decisão passível de interpretação — deve ser aplicada independentemente do julgamento de qualquer organismo. Essa alteração nos critérios durante o torneio pode criar precedentes indesejáveis para situações similares no futuro.

Figuras emblemáticas do futebol inglês também se uniram às críticas. O ex-atacante Wayne Rooney comentou à BBC que Infantino deveria se envergonhar pela situação. Por outro lado, Gary Neville foi direto ao afirmar à ITV Sports que a decisão “absolutamente fede”.

Um padrão já estabelecido?

A Fifa defende que essa situação não é inédita: citou casos como o de Cristiano Ronaldo, que teve duas das três partidas suspensas após ser expulso em um jogo eliminatório contra a Irlanda; além das situações envolvendo Nicolás Otamendi (Argentina) e Moisés Caicedo (Equador), cujas suspensões foram adiadas para permitir sua presença na estreia do torneio. No entanto, o aspecto crucial reside no timing: nos exemplos anteriores, as suspensões foram tratadas antes do início da Copa — jamais durante uma fase eliminatória sob pressão direta e pública de um chefe de Estado.

Vínculos pessoais entre Trump e Infantino

Esse episódio reacende discussões sobre os laços pessoais entre Trump e Infantino estabelecidos ao longo dos últimos anos. Em dezembro passado, Trump recebeu da Fifa o primeiro “Prêmio Fifa da Paz”, criado pela entidade antes do Mundial. Na ocasião, Infantino declarou que o presidente merecia tal reconhecimento por seu trabalho — “ainda que de uma forma incrível”, segundo suas palavras — e garantiu seu apoio contínuo ao presidente americano. Documentos financeiros divulgados recentemente revelaram ainda que Infantino presenteou Trump com dez ingressos avaliados em US$ 15 mil para assistir à final da Copa do Mundo de Clubes em 2025, evento realizado em Nova Jersey onde Trump esteve presente ao lado de Infantino para entregar o troféu ao Chelsea.

Um assessor próximo a Trump minimizou a importância da intervenção presidencial na decisão final, sugerindo que caso realmente houvesse influência na reversão do resultado ele não hesitaria em divulgar isso publicamente — argumento visto como mais uma estratégia política do que uma explicação plausível diante dessa alteração histórica nas regras após mais de sessenta anos.

Implicações além do jogo contra a Bélgica

Independentemente do resultado no confronto desta segunda-feira, esse episódio deixa uma marca difícil de ser apagada: pela primeira vez na história recente das Copas do Mundo um chefe de Estado interveio diretamente — por meio de uma ligação telefônica — junto ao dirigente máximo do futebol mundial para alterar uma decisão disciplinar durante os confrontos eliminatórios numa competição realizada em seu próprio país. Para um torneio que se apresenta como território neutro regido por normas objetivas aplicáveis igualmente a todos os participantes, fica evidenciado um sistema disposto a contornar suas próprias diretrizes quando alguém possui acesso direto ao número certo.

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