ENTREVISTA EXCLUSIVA À CNN
NOVA YORK — Na véspera da Assembleia Geral da ONU, onde o Brasil costuma ser o primeiro a discursar, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva participou de uma entrevista exclusiva com a jornalista Christiane Amanpour, da CNN Internacional, em Nova York. Durante a conversa, ele fez um dos mais contundentes pronunciamentos de seu mandato contra a postura de Donald Trump no cenário global. “Trump foi eleito para liderar os EUA. Ele tem o direito de governar seu país, mas não pode ditar regras para outras nações. Não pode impor sua vontade”, declarou Lula, defendendo a soberania do Brasil, a paz mundial e o multilateralismo, ao mesmo tempo em que rejeitou categoricamente a ideia de que o Irã seja uma ameaça nuclear.
“A chamada lei do mais forte”
<pAmanpour iniciou a entrevista lembrando que na última vez em que conversou com Lula, ele havia se referido a Trump como "imperador". Em julho passado, Lula já havia afirmado que o americano "não foi eleito para ser o imperador do mundo". Ao ser questionado se ainda mantinha essa avaliação, o presidente explicou sua visão sobre as tarifas impostas: "Trata-se da chamada lei do mais forte, algo com o qual não concordo". Segundo Lula, as tarifas aplicadas ao Brasil foram baseadas em informações falsas, considerando que há um déficit na balança comercial entre os dois países.
Em vez de retaliar prontamente, Lula optou por diversificar suas parcerias comerciais. Ele informou que as exportações brasileiras aos EUA caíram aproximadamente 9% e as importações diminuíram 8,5% neste ano. Em contrapartida, as trocas comerciais com países como China (20%), Japão (18%), Alemanha (16%), Vietnã (14%) e União Europeia (23%) aumentaram. “Não vou ficar lamentando o leite derramado; buscarei novos parceiros”, afirmou. “Não tenho interesse em iniciar uma guerra tarifária com os Estados Unidos ou qualquer outro país. Meu objetivo é negociar.” A Lei de Reciprocidade Econômica, aprovada por unanimidade no Congresso Nacional, só será implementada caso não haja um acordo.
Soberania não se negocia
A entrevista ocorreu poucos dias após o Brasil ter se unido à União Europeia, Canadá e Quênia para publicar um manifesto no Financial Times em defesa do multilateralismo — iniciativa conhecida como Partners for Multilateralism (P4M). Quando Amanpour perguntou se esse movimento representava um desafio aos EUA, Lula foi direto: “Não se trata de desafiar os Estados Unidos; é sobre afirmar que cada país possui soberania e deve cuidar de seus interesses. Os EUA não podem ditar regras para ninguém”. Ele resumiu sua visão diplomática: “Buscamos parceria, não intromissão. O que rejeitamos é imposição”. Antes disso, ele havia comentado: “Não sou de fazer bravatas; valorizo o respeito e espero ser respeitado”.
Seguindo essa linha de raciocínio, Lula criticou a posição dos EUA em relação à Venezuela: segundo ele, os Estados Unidos transmitem a impressão de estarem governando aquele país vizinho e que sua soberania foi comprometida. “Se Maduro cometer erros, deve ser responsabilizado e investigado”, ponderou Lula antes de rejeitar essa abordagem: “Esse não é o modo correto de conduzir a política internacional”.
Faltando 12 dias para as eleições no Brasil, Lula classificou Eduardo Bolsonaro como um dos “traidores da pátria” que atuam nos EUA incitando Washington contra o Brasil. Ele também levantou suspeitas — “por enquanto apenas suspeitas” — sobre possíveis interferências eleitorais relacionadas ao secretário de Estado Marco Rubio e sua proximidade com aliados do Bolsonaro. “É crucial que os Estados Unidos não interfiram nas eleições brasileiras assim como eu nunca interfiro nas deles”, destacou.
“Cadê a bomba nuclear que tem o Irã?”
Um dos momentos mais impactantes da entrevista foi quando Lula defendeu o Irã e criticou guerras fundamentadas em mentiras sem comprovação. “Onde está a bomba nuclear do Irã? Em 2010 fui ao Irã negociar. O Brasil e a Turquia tentaram um acordo que foi rejeitado pelos EUA e pela Europa — e agora eles conseguiram um acordo pior. Não há bomba nuclear no Irã e ainda assim houve guerra contra eles. O que aconteceu com o mundo?”, questionou Lula, lembrando do precedente iraquiano: “Mataram Saddam Hussein e até hoje não encontraram armas químicas”.
Lula conectou os conflitos ao impacto econômico no cotidiano das pessoas: atualmente, todos pagam mais caro por combustível, fertilizantes e alimentos devido às guerras. “Até quando vamos nos submeter a mentiras? Seria muito mais simples construir um mundo pacífico”, indagou.
“Onde é que a humanidade vai ter paz?”
O presidente mencionou que atualmente vivemos “a maior quantidade de conflitos desde a Segunda Guerra Mundial”, citando tanto o genocídio na faixa de Gaza quanto a guerra na Ucrânia. Ele criticou a inação do Conselho de Segurança da ONU: “Cinco membros dominam tudo e possuem poder de veto; a ONU não consegue evitar nenhum conflito”. Para ele, “é necessário reformular como a ONU funciona”, pois atualmente está “desacreditada”.
Lula revelou ter feito contatos diretos com Trump, Xi Jinping e Vladimir Putin pedindo uma reunião entre líderes para discutir questões relacionadas à paz mundial. “Precisamos investir em educação e saúde ao invés de gastar trilhões em guerras”, criticou ele. “Os líderes das maiores economias devem parar os conflitos e promover paz; eles são quem alimenta as disputas. Onde podemos encontrar paz? Quando?”
Aos 80 anos e após 50 anos dedicados à vida pública, Lula expressou estar “indignado” com a deterioração da ordem internacional: “A segurança territorial deixou de existir; qualquer país pode invadir outro país agora. Isso é aceitável?”
Eleições, urna e negacionismo
Ao ser questionado sobre sua candidatura nas eleições em que aparece empatado tecnicamente com Flávio Bolsonaro (PL), Lula declarou estar “muito tranquilo”: “Vou vencer porque o Brasil precisa da democracia”. Ele elogiou as urnas eletrônicas brasileiras — “o sistema eletrônico deveria ser adotado mundialmente” — destacando que em um país com 160 milhões de eleitores os resultados são conhecidos apenas uma hora após o fechamento das votações. Concluiu fazendo uma crítica aos negacionistas climáticos: um tema que desapareceu das pautas do G7 e G20: “O negacionismo não pode prevalecer em lugar algum; o que realmente importa é cuidar das pessoas”.
Assista acima ao trecho da entrevista onde Lula afirma que Trump “não tem direito de governar outros países”. A íntegra da conversa foi divulgada pela CNN neste domingo (21); o discurso do presidente brasileiro na abertura da Assembleia Geral da ONU está agendado para esta terça-feira (22), seguido pela fala de Trump.

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