O colapso elétrico que deixou 11 milhões de cubanos no escuro não foi um acidente, mas o resultado previsível de décadas de sufocamento econômico promovido por Washington.
Cuba ficou às escuras.
No início da semana passada, a ilha caribenha vivenciou um blecaute total, deixando todos os seus aproximadamente 11 milhões de habitantes sem energia elétrica por várias horas. O Ministério de Energia cubano confirmou a falha completa do sistema nacional e informou que medidas de emergência foram acionadas.
A crise não chegou de surpresa. O país enfrenta meses de cortes prolongados e uma escassez grave de combustível, situação que se agravou depois que o governo Trump intensificou a pressão sobre os fornecedores de petróleo da ilha. Autoridades cubanas afirmam que nenhum carregamento de óleo chegou ao país nos últimos três meses, período que coincide com novas ameaças de sanções dos Estados Unidos.
O impacto humano foi imediato e severo. Um dos incidentes mais preocupantes foi a interrupção de energia no Hospital Faustino Pérez, em Matanzas, que só conseguiu restabelecer o fornecimento por meio de geradores de emergência. Essa situação ressaltou o perigo real para pacientes em estado crítico e para toda a rede de saúde cubana.
O presidente Miguel Díaz-Canel afirmou que o país está aberto ao diálogo com Washington, mas “sem renunciar aos nossos princípios ou soberania”. Ele culpou o bloqueio “perverso” pelo aumento do sofrimento da população civil, especialmente dos grupos mais vulneráveis.
O governo norte-americano justifica a pressão mencionando as relações de Havana com Rússia, China, Irã e grupos armados pró-palestinos. Essa é a mesma justificativa que sustenta o embargo desde 1962, tornando-o o mais prolongado da história moderna.
A Assembleia Geral da ONU votou repetidamente pela suspensão do embargo ao longo de seis décadas. Em 2023, 187 países votaram a favor do fim das sanções, com apenas Estados Unidos e Israel votando pela manutenção. O isolamento dos Estados Unidos é sistemático e expõe a natureza política da medida.
A situação ficou ainda pior devido a outro desenvolvimento. A Venezuela, principal fornecedora de petróleo para Cuba, também é alvo da estratégia norte-americana. As pressões sobre Caracas impactaram o fornecimento de combustível para Havana em um momento já crítico.
Rússia e China condenaram o bloqueio como desumano. Para Moscou e Pequim, a pressão sobre Cuba faz parte de um padrão mais amplo de utilização de sanções econômicas como forma de guerra não declarada contra países que resistem à hegemonia ocidental.
O colapso elétrico tem raízes estruturais. O parque de usinas termelétricas na ilha é antigo e necessita de manutenção e combustível. Com o bloqueio interrompendo o suprimento, as usinas operam abaixo da capacidade e o sistema entra em colapso em cadeia.
O dia a dia da população reflete esse cenário. Famílias ficam sem luz por horas ou até dias, a produção de alimentos é prejudicada e serviços essenciais são comprometidos. Trata-se de uma crise criada, não de uma calamidade natural.
Para o Brasil, o incidente tem implicações políticas diretas. O governo Lula defende o multilateralismo e o respeito à soberania nacional, posição que o coloca em conflito com a estratégia de isolamento de Washington. Nas votações na ONU, Brasília consistentemente se posiciona a favor do fim do embargo a Cuba.
O blecaute desta semana é apenas mais um capítulo de uma guerra prolongada e assimétrica. De um lado, a maior potência mundial; do outro, uma ilha pequena e pobre em recursos, submetida a décadas de pressão constante.
