Em um movimento sem precedentes nas últimas duas décadas, 68 prefeitos eleitos em 2024 optaram por renunciar a seus cargos neste ano, visando novas oportunidades nas eleições de 2026. Eduardo Paes (PSD), ex-prefeito do Rio de Janeiro, é o exemplo mais notável dessa situação, deixando sua posição em 20 de março para concorrer ao governo do estado, mesmo após ter prometido, durante sua campanha, que cumpriria seu quarto mandato.
A administração carioca agora está sob o comando de Eduardo Cavaliere (PSD), que era o vice de Paes e um aliado próximo. Cavaliere foi eleito na mesma chapa, mas não teve a chance de ser escolhido diretamente pelos cidadãos para liderar a prefeitura até 2028.
Diferentemente de José Serra, que formalizou sua saída da Prefeitura de São Paulo para se candidatar ao governo paulista em 2006, Paes não assinou nenhum documento se comprometendo a permanecer no cargo. Contudo, fez uma declaração com forte apelo simbólico ao afirmar que seu mandato seria mantido “pelo Vasco da Gama e pela Portela”.
Essa frase, que tentava capturar a essência carioca, rapidamente se tornou uma ferramenta política descartável. Paes trocou sua promessa por uma candidatura mais ambiciosa e deixou a gestão da capital nas mãos de um sucessor que representa continuidade, mas não uma escolha direta do eleitorado.
O panorama das renúncias
Dentre os prefeitos que deixaram seus postos, a maior parte busca agora assentos nas Assembleias Legislativas, totalizando 35 dos 68 casos identificados. Outros 16 estão concorrendo ao governo estadual, sendo dez deles ex-prefeitos de capitais. Além disso, há 12 candidatos à Câmara dos Deputados e duas candidaturas ao Senado, assim como três para vice-governador.
Os dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) foram atualizados às 16h30 do dia 25 de agosto. Esse fenômeno reflete um aumento contínuo desde 2014, quando apenas 16 prefeitos haviam abandonado seus mandatos para participar das eleições gerais. Em 2022, esse número saltou para 48.
É importante destacar que há uma clara delimitação jurídica para essa prática. Prefeitos interessados em concorrer a outros cargos devem renunciar até seis meses antes da eleição — regra que foi respeitada nos casos observados. Contudo, o dilema político persiste: a renúncia não apaga as promessas feitas durante as campanhas eleitorais.
Trajetória política e administração municipal
O cientista político Victor Escobar, associado ao Laboratório de Partidos, Eleições e Política Comparada (Lappcom) da UFRJ e da UFRRJ, considera essa troca de cargos como parte natural do avanço na carreira política dos indivíduos envolvidos.
A elevação deste ano também pode ser explicada numericamente; as eleições municipais de 2024 resultaram em um número recorde de reeleições – dos 68 prefeitos que renunciaram, 61 estavam em seu segundo mandato.
Esse dado diminui a percepção de traição generalizada entre os políticos. No entanto, isso não isenta casos como o de Paes. Mesmo aqueles no segundo mandato não podiam buscar nova reeleição municipal e ainda assim tinham a responsabilidade perante os eleitores de governar até o fim do período estabelecido.
A dinâmica desse movimento está ligada ao controle sobre a máquina pública local. Um prefeito que mantém um vice leal e consegue outro cargo enquanto acessa recursos ou articulações estaduais preserva sua influência sobre a base deixada.
Essa situação vai além da ambição pessoal; trata-se também de uma estratégia para garantir a sobrevivência política onde a prefeitura se torna um trampolim e o vice uma forma de assegurar continuidade — com os eleitores atuando como fiadores involuntários desse arranjo.
Casos significativos no Rio
No Rio de Janeiro, Wladimir Garotinho (PL), ex-prefeito de Campos dos Goytacazes, é o nome mais proeminente entre aqueles que renunciaram com o intuito de disputar um assento na Câmara dos Deputados. Filho do ex-governador Anthony Garotinho (Republicanos), ele busca ampliar a representação das regiões norte e noroeste fluminenses em Brasília.
No mesmo estado, Márcio Canella (União Brasil) deixou sua posição na Prefeitura de Belford Roxo ainda no primeiro mandato para tentar retornar à Assembleia Legislativa do Rio (Alerj). Embora tenha cogitado uma candidatura ao Senado inicialmente, recuou após ser alvo de investigações policiais relacionadas à lavagem de dinheiro através de postos de gasolina.
A contradição mais emblemática recai sobre Paes. Reeleito prefeito do Rio pela quarta vez com uma campanha focada na experiência administrativa e na conexão com os cidadãos da cidade, ele abandonou sua função antes da metade do mandato para buscar o Palácio Guanabara.
Cavaliere assumiu com a proposta de dar continuidade à gestão anterior; no entanto, isso não altera o fato central: os eleitores escolheram Paes como prefeito e agora recebem Cavaliere como novo titular.
As eleições programadas para outubro revelarão se essa promessa não cumprida terá repercussões políticas ou se a estrutura administrativa existente e os desafios enfrentados pelos adversários prevalecerão sobre essas questões. Até lá, o Rio continua gerenciando as consequências dessa escolha apresentada por Paes como um compromisso sério enquanto se revela uma etapa em sua trajetória profissional.

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