O Instituto Conhecimento Liberta (ICL) enfrenta uma crise interna que se tornou bastante visível nos últimos dias. O jornalista Leandro Demori, que ocupava o cargo de diretor de Jornalismo, além de ser apresentador e comentarista na instituição por três anos, foi demitido na sexta-feira passada (10). As narrativas apresentadas por Demori e pelo fundador do ICL, Eduardo Moreira, um ex-banqueiro, sobre os motivos da sua saída apresentam divergências significativas.
A perspectiva de Moreira: prejuízos e as grandes plataformas como vilãs
Em uma declaração durante o telejornal do ICL na última segunda-feira (13), Moreira justificou a demissão de Demori como parte de um esforço para equilibrar as finanças da organização, que, segundo ele, tem enfrentado déficits desde o começo do ano. Ele apontou o aumento dos custos com publicidade digital como o principal fator responsável pela situação. O ICL tem sua maior parte do financiamento proveniente da venda de cursos e, por questões editoriais, rejeita anúncios de bancos, casas de apostas e governos, além da monetização via YouTube. Dessa forma, a dependência recai sobre anúncios pagos no Instagram/Facebook (Meta) e Google para atrair novos alunos.
Moreira afirmou que essas plataformas começaram a categorizar algumas campanhas do ICL como publicidade política — incluindo elementos estéticos simples, como a cor vermelha utilizada em materiais promocionais — o que elevou os preços dos anúncios e comprometeu sua eficácia.
Diante da pressão financeira, Moreira decidiu cortar cargos com salários mais altos — entre eles estava Demori, além do então CEO e outros diretores — para proteger várias posições com remunerações menores. Ele enfatizou que “não havia outra opção senão realizar ajustes na empresa”. O fundador ainda ressaltou publicamente as qualidades profissionais de Demori, destacando-o como um dos jornalistas mais competentes do Brasil.
A versão de Demori: exigência para reduzir 30% da equipe de jornalismo sem negociação
Por outro lado, Demori apresenta uma narrativa completamente distinta. Em uma carta endereçada ao Conselho Editorial do ICL — composto por figuras como Juca Kfouri, Chico Pinheiro e Cristina Serra — ele argumenta que a crise financeira resulta de decisões empresariais que foram tomadas sem seu conhecimento ou consulta. O jornalista relatou que antes de sua demissão foi solicitado a cortar 30% do orçamento da área de jornalismo — cujos gastos sempre foram monitorados por um comitê interno, o que refuta a ideia de que os problemas financeiros se originaram nessa área.
Além disso, Demori mencionou ter sugerido uma reunião ampliada com diretores e membros do Conselho Editorial antes que qualquer decisão fosse tomada — um pedido que não teria sido atendido. Na sexta-feira passada, ele foi informado sobre sua saída tanto da Diretoria de Jornalismo quanto de outras funções dentro da instituição. Em sua manifestação pública nesta segunda-feira, ele descreveu a situação como uma decisão unilateral: “Fui afastado pelo ICL devido a uma escolha unicamente da direção”.
Sócio excluído do grupo no WhatsApp
Um detalhe revelador sobre a tensão decorrente dessa separação é o fato de que após enviar sua carta ao Conselho Editorial, Demori foi retirado do grupo no WhatsApp destinado à diretoria por Moreira. Apesar dessa situação conturbada, ele ainda é formalmente um dos sócios do Instituto Conhecimento Liberta — junto com Moreira e outros seis sócios — e já está considerando solicitar uma auditoria externa para esclarecer sua posição societária.
Um jornalista desempregado em meio a uma eleição tensa
O momento da demissão é particularmente significativo. Antes de fazer parte do ICL, Demori atuou como editor-executivo no The Intercept Brasil e teve papel fundamental na cobertura da Vaza Jato — série que revelou mensagens entre o então juiz Sergio Moro e procuradores envolvidos na Lava Jato. Agora sem vínculo formal com nenhuma instituição jornalística, ele planeja continuar sua trajetória em jornalismo independente; no entanto, enfrenta um desafio prático: terá que lidar sozinho com processos judiciais decorrentes das suas investigações — uma situação cada vez mais custosa e frequente. Para se manter ativo durante o período eleitoral, ele já anunciou uma campanha para arrecadar fundos coletivos e está escrevendo um livro sobre o exercício do poder no Brasil contemporâneo, com lançamento previsto para coincidir com a campanha.
Um racha revelador sobre os desafios financeiros do jornalismo independente
Além das disputas pessoais entre Moreira e Demori, este episódio destaca um problema estrutural enfrentado pelos veículos de comunicação independentes no Brasil: sem contar com publicidades estatais ou provenientes de bancos e apostas — um compromisso editorial reafirmado pelo próprio ICL — a viabilidade financeira desses projetos fica quase totalmente dependente das decisões (e algoritmos) das gigantes americanas Meta e Google que controlam tanto os custos quanto o alcance da publicidade digital.
Caso a versão apresentada por Moreira seja correta, o aperto financeiro mencionado por ele — onde campanhas legítimas para venda de cursos estão sendo tratadas como propaganda política — é um problema que pode impactar não apenas o ICL mas também qualquer veículo independente que dependa dessa mesma estrutura publicitária para garantir seu funcionamento. Isso ocorre justamente em um período eleitoral em que esse tipo de cobertura é ainda mais necessária.

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