Por Elias Jabbour, em colaboração com o Grupo de Mídia da China
Antes de tudo, é imprescindível ressaltar que a compreensão do êxito econômico e social da China não pode ser feita sem considerar a influência do Partido Comunista da China (PCCh) ao longo de sua trajetória, que abrange desde a revolução e reforma até a denominada “Nova Era”, iniciada em 2017 sob a liderança de Xi Jinping como secretário-geral do Comitê Central. A política lidera a economia, que reflete políticas justas e bem elaboradas, implementadas ao longo do tempo. Não há como explicar a China contemporânea apenas através do prisma do “sucesso econômico”; sem o PCCh, a China moderna não existiria.
Com quase 105 anos de história, é vital analisar os motivos pelos quais o Partido Comunista da China preserva uma base popular robusta e consegue enfrentar desafios significativos da conjuntura atual, evitando os ciclos históricos de ascensão e queda enfrentados por outros partidos comunistas no passado, como ocorreu na União Soviética e na Europa Oriental. Diversos fatores contribuem para isso, incluindo a habilidade de criar um corpo teórico que se sustenta em práticas constantes e na busca por soluções aos desafios enfrentados.
A partir de 2017, o Partido se comprometeu a passar por um rigoroso processo de autorrenovação. Xi Jinping destaca essa necessidade com clareza:
“A autorrenovação é essencial para assegurar que nosso Partido mantenha sua natureza, cor e caráter. Em meu discurso durante as comemorações do Centenário do PCCh em julho deste ano (1), afirmei que o PCCh nunca representa interesses particulares ou grupos privilegiados. (…) Este é um alerta à tentativa de alguns indivíduos com segundas intenções de dissociar nosso Partido do povo ou colocá-lo contra ele. É também um lembrete para todos nós sobre as questões fundamentais: para quem governamos? Para quem exercemos poder? E quem buscamos beneficiar?” (2).
Uma análise cuidadosa desse discurso leva a algumas conclusões importantes. Primeiramente, o PCCh, sendo um partido marxista, não representa grupos de interesse ou os interesses do capital. Em segundo lugar, o Partido deve focar nos desafios atuais que marcam este período histórico, buscando atingir metas ambiciosas como autonomia tecnológica e alimentar, cumprir as determinações dos congressos nacionais e garantir uma qualidade de vida superior para a população, além de ser a síntese das melhores tradições da nação e do movimento revolucionário que o originou.
Xi Jinping ressaltou ainda que a autorrenovação é fundamental para aprimorar a capacidade administrativa do Partido. Segundo ele, essa coragem em se renovar distingue o PCCh dos demais partidos políticos:
“Nosso Partido é imenso, possui 100 anos de história e governa este país desde 1949. Como romper o ciclo histórico de ascensão e queda? O camarada Mao Zedong já havia dado uma primeira resposta em sua residência caverna em Yan’an em 1947: ‘Somente sob o escrutínio do povo o governo não terá coragem de relaxar seus esforços.’ Após um século de lutas e especialmente desde as novas práticas instauradas no 18º Congresso Nacional do PCCh em 2012, o nosso Partido encontrou agora uma segunda resposta: realizar autorrenovação.” (3)
No início de 2024, Xi Jinping reiterou essa visão:
“(…) O objetivo essencial é orientar uma grande transformação social. Precisamos planejar nossa autorrenovação com base nas novas exigências dessa transformação social e avaliar os resultados à luz das conquistas nesse processo; assim alcançaremos nossa meta de renovação que deve ser impulsionada pela transformação social.” (4)
A transformação social atua como motor da autorrenovação ao estabelecer que o PCCh está sempre sob vigilância popular. Isso implica tanto em rejeitar influências externas quanto em ouvir ativamente as críticas e demandas da população. É ao povo chinês que o PCCh deve fidelidade e comprometimento.
Historicamente, na milenar trajetória da China, dinastias foram depostas após grandes revoltas populares motivadas pela crescente incapacidade governamental em atender às necessidades básicas da população, culminando na corrupção. Essa lição histórica foi reforçada após a ascensão de Xi Jinping à liderança do PCCh em 2012. As respostas adotadas para combater fenômenos como corrupção são rigorosas:
“Decidimos adotar medidas severas contra problemas graves e implementar leis estritas para lidar com desordens; tivemos coragem para aplicar ações dolorosas como ‘raspar os ossos para extirpar venenos’ e ‘cortar o próprio braço para salvar vidas’; mantivemos firmeza na luta contra corrupção ao ‘caçar tigres’, ‘esmagar moscas’ e ‘capturar raposas’; conseguimos eliminar riscos significativos dentro do Partido, no Estado e nas forças armadas. Dentre tantos partidos governantes pelo mundo afora, quantos têm coragem de enfrentar a corrupção em uma escala tão grande e persistente como nós?” (5).
A adaptabilidade histórica do PCCh é crucial para seu sucesso; mais importante ainda é sua constante observação dos erros cometidos por antigas dinastias no poder e pelas primeiras experiências socialistas do século XX.
Assim sendo, a chave reside na incessante “autorrenovação”, elevando continuamente os níveis de crítica e autocrítica.
Notas:
- O discurso foi proferido no ano de 2021.
- Excerto extraído da 2ª reunião plenária da 6ª sessão plenária do 19º Comitê Central do PCCh.
- “Avançar na autorrenovação do Partido”. Trecho retirado da 3ª sessão plenária da 20ª Comissão Central de Inspeção Disciplinar do PCCh. Data: 08/01/2024.
- Trecho retirado da segunda reunião plenária da sexta sessão plenária do décimo nono Comitê Central do PCCh.
Elias Jabbour é geógrafo, economista e professor universitário brasileiro com uma trajetória intelectual voltada ao marxismo. Ele estuda as realidades chinesas desde os anos 1990.
