Desvendando os desafios da liderança feminina negra: parte 2

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Por Rollo — que já desempenhou papéis como estagiário, funcionário, líder e sócio-diretor. Passou por situações onde recebeu ordens e também as deu, aprendendo que, no Brasil, a estrutura hierárquica se estabelece de maneira eficaz… até o momento em que o chefe é negro.

 

No artigo anterior, deixamos o racismo em um espaço onde ele prefere permanecer escondido: a diretoria. O Brasil aceita relativamente bem o sucesso de pessoas negras — desde que sua presença seja meramente simbólica. Pode ser utilizado como prêmio, em palestras, campanhas de diversidade ou na capa de relatórios anuais. Isso parece ótimo. O problema surge quando uma pessoa negra deixa de ser uma figura decorativa e passa a tomar decisões como aprovar férias, recusar aumentos salariais, avaliar desempenhos e controlar orçamentos – além de ter a audácia de dizer “não”. Nesse momento, a diversidade, tão atrativa visualmente, começa a apresentar falhas significativas.

Enquanto um homem negro em posição de liderança ainda provoca reações adversas em algumas pessoas, uma mulher negra à frente consegue acionar dois alarmes simultaneamente: os do racismo e do machismo. Ela não apenas chegou ao seu espaço; ela exerce poder. É quase uma violação das normas estabelecidas ao longo de séculos.

 

Mulheres negras lideram empresas. E egos

 

Existe uma função que não é ensinada em nenhuma universidade, mas muitas mulheres negras desempenham sem receber adicional por isso: Diretora de Recursos Humanos da Fragilidade Alheia. Além de gerenciar metas e prazos com suas equipes, elas precisam lidar com o desconforto daqueles que ainda associam autoridade a rostos brancos. Se uma executiva branca exige resultados, é considerada firme. Se uma executiva negra cobra o mesmo desempenho, é rotulada como “agressiva”. A branca que interrompe é vista como objetiva; a negra não sabe ouvir. Quando uma branca demite alguém, trata-se de uma decisão difícil; quando a negra faz o mesmo, ela “humilha” o funcionário.

A melanina parece alterar até mesmo os significados dos verbos utilizados no ambiente profissional. Mandar transforma-se em liderar; cobrar passa a ser sinônimo de pressionar; discordar é interpretado como hostilidade; dizer “não” é visto como um ato belicoso. Espera-se que a chefe negra exerça sua autoridade sem parecer autoritária, brilhe sem intimidar e cobre resultados sem fazer com que os outros sintam que estão sendo cobrados — sempre com um sorriso no rosto, servindo café e pedindo desculpas por ocupar o cargo de liderança.

A avaliação profissional também segue uma lógica distorcida. Mesmo possuindo três diplomas, fluência em quatro idiomas e duas décadas de experiência enquanto salva a empresa da falência numa terça-feira, na quinta-feira alguém ainda poderá afirmar: “Não sei… falta jeito”. Jeito para trabalhar? Evidentemente não. Falta a familiaridade que alguns têm ao confundir branquitude com legitimidade. Para muitas mulheres negras, alcançar posições elevadas é apenas o primeiro passo; depois começa a luta diária para provar que não entraram pela porta errada.

 

Viola Davis estragou o roteiro

 

<pÉ nesse contexto que Viola Davis se torna relevante na discussão não apenas como atriz, mas como um teste para as percepções sociais. Em “Como Defender um Assassino”, ela dá vida à Annalise Keating, advogada criminal e professora universitária que não aparece para agradecer por estar no centro das atenções; ela ocupa esse espaço porque lhe pertence.

Annalise é complexa: brilhante e contraditória ao mesmo tempo, forte e vulnerável. Ela erra e acerta; vence e sofre; exerce controle sem pedir desculpas por isso. É uma representação humana que personagens masculinos puderam explorar ao longo dos anos sem questionamentos sobre sua simpatia ou comportamento adequado. O incômodo surge da forma como Annalise foi escrita: longe do estereótipo da mulher negra submissa ou agradecida ao redor dos outros. Ela possui poder — e não pede desculpas por isso.

A indústria cinematográfica sempre soube criar personagens femininas negras “fortes”, contanto que essa força fosse direcionada a apoiar outros: filhos, maridos ou protagonistas brancos. O antigo modelo narrativo mal tolerava quando essa força era convertida em comando individual. Annalise rompe essa barreira ao mostrar que parte do desconforto do público não reside apenas nas ações dela, mas na identidade dela enquanto mulher negra no poder.

Em outra faceta da atuação de Viola Davis está Amanda Waller em “Esquadrão Suicida”, onde sua personagem faz super-heróis parecerem estagiários inexperientes: Waller não possui super poderes nem armaduras impressionantes; seu arsenal consiste em informações estratégicas e poder institucional. Com isso, consegue tornar figuras armadas parecendo simples candidatos esperando por uma entrevista de emprego no RH. E então surge a diferença na percepção: homens frios e calculistas são frequentemente celebrados como gênios ou anti-heróis; quando uma mulher negra ocupa essa mesma posição de poder logo aparecem rótulos como “assustadora” ou “cruel”. Amanda Waller pode agir cruelmente? Sim! Mas o ponto crucial é entender como até essa crueldade recebe percepções diferentes dependendo da quem a exerce.

Quando um homem branco controla tudo é chamado de maquiavélico; quando essa figura se torna uma mulher negra controladora logo se pede ajuda externa para intervir na situação. Viola Davis provoca desconforto porque não oferece personagens confortáveis para consumo fácil: traz dignidade junto com poder; apresenta dor mas também raiva; resistência além do controle esperado. Ela desafia um roteiro arcaico — aquele que determina que mulheres negras podem ser extraordinariamente fortes desde que permaneçam subordinadas.

 

A diversidade parece atraente até chegar à hora da avaliação

 

Cabe lembrar que apoiar a diversidade é simples enquanto se mantém distante dos efeitos práticos disso. Aplaudir representatividade fica fácil até o momento em que uma líder negra precisa aplicar sanções disciplinares ou recusar promoções durante reuniões decisivas. Nesse instante, igualdade deixa de ser teoria abstrata para se tornar algo palpável com crachá e responsabilidades reais — alguns defensores da diversidade repentinamente começam a valorizar “moderação”, “perfil” ou “aderência cultural”. O preconceito ganhou sofisticação e agora sabe utilizar jargões corporativos.

Atualmente o racismo raramente se expressa explicitamente com frases diretas como “não sigo ordens dadas por negros”. Essa abordagem seria considerada inadequada nos dias atuais; hoje prefiram justificativas mais sutis: “faltou escuta”, “não agrega valor”, “é muito dura”, “não possui perfil desejado”. As portas continuam fechadas; apenas mudaram as palavras utilizadas para recusar as candidaturas através de mensagens educadas.

Um detalhe curioso permanece: visualizar uma mulher branca trabalhando sob as ordens de uma mulher negra ainda causa estranhamento significativo no Brasil — embora essa dinâmica seja apenas profissionalmente normalizada em qualquer lugar civilizado do mundo ocidental contemporâneo. Durante séculos foi ensinado aos brasileiros que esta imagem deveria ser invertida: patroa branca com empregada negra à disposição dela; madame sentada enquanto sua assistente permanece em pé prestando serviços diversos. Quando esse cenário muda radicalmente alguns acreditam estar presenciando alguma ruptura nas leis naturais já estabelecidas há tanto tempo.

 

Tiago e sua cadeira temporária

 

No enredo da novela “Quem Ama Cuida”, escrita por Walcyr Carrasco, temos Tiago Brandão (interpretado por Gui Ferraz) ascendendo dentro da joalheria familiar após Arthur Brandão falecer e provocar disputas pelo comando da empresa entre familiares envolvidos na trama narrativa local conhecida popularmente como “golpe branco”, onde “brancos” tomam decisões normalmente prejudiciais aos demais colaboradores presentes no ambiente corporativo retratado na ficção televisiva nacional brasileira contemporânea . Ao ser afastado do cargo devido a intrigas familiares internas (uma espécie de “golpe branco”), Tiago representa bem um sentimento conhecido fora das telinhas: profissionais negros podem alcançar altos cargos mas continuam sendo vistos como se estivessem sempre numa fase experimental.

A cadeira vem acompanhada de um rótulo invisível escrito USO TEMPORÁRIO — toda crise representa risco iminente à permanência dele nesse posto superior ocupado anteriormente pela má vontade institucional histórica construídas dentro dessa lógica desigual aplicada diretamente sobre os indivíduos negros inseridos nesse mercado cada vez mais competitivo . Qualquer erro cometido assume proporções desmedidas enquanto qualquer desacordo serve como justificativa suficiente para restaurar antigos padrões discriminatórios impostos àqueles menos favorecidos socialmente pelos sistemas sociais vigentes . Assim sendo , “restaurar ordem” significa simplesmente retornar aquele quadro tradicionalmente desigual configurando-se novamente numa imagem conhecida há gerações passadas pelas sociedades escravocratas imperantes durante séculos nas terras tupiniquins nacionais brasileiras contemporâneas .

 

O benefício da dúvida

 

Um aspecto perverso ainda permanece visível nessa dinâmica social cotidiana vivenciada atualmente : profissionais brancos costumam receber oportunidades contínuas mesmo cometendo erros pelo caminho . Eles erram mas têm chance real para aprender com suas falhas , amadurecendo assim seus conhecimentos ao longo do caminho trilhado profissionalmente . Ao contrário , negros especialmente aqueles ocupando posições elevadas frequentemente parecem contar somente com benefícios limitados , ou seja , eles recebem essencialmente apenas um benefício momentâneo denominado dúvida — caso contrário suas chances são minúsculas diante das barreiras colocadas pelo racismo estrutural existente presente nesse sistema corporativo atual brasileiro contemporâneo . A liderança torna-se então provisória , quase como se essa cadeira fosse emprestada temporariamente para realizar experiências sociais passíveis de serem interrompidas assim que surgirem sinais evidentes desconforto geral entre os demais participantes envolvidos nessa estrutura organizacional dominada majoritariamente pela elite branca hegemônica local vigente . Portanto Tiago representa bem esse ponto desta discussão : sua trajetória revela algo muito mais profundo sobre aceitação social aqui fora – pois sabemos bem qual realidade enfrentamos cotidianamente além das telas televisivas : poderes negros são aceitos facilmente desde que pareçam transitórios ; enquanto eles sobem nas hierarquias corporativas são apresentados publicamente como exemplos meritocráticos positivos ; porém assim que eles alcançam estabilidade naquele topo decisório começa mudar todo discurso pré-estabelecido rapidamente transformando-se num problema relacionado diretamente ao perfil considerado aceitável pelos setores dominantes dessa sociedade desigual vigente atualmente hoje .

No final das contas , talvez esteja errada a pergunta “quem tem medo do chefe negro?” ou até mesmo “da chefa negra?”. O verdadeiro desafio reside em admirar alguém negro sem hesitações profissionais negativas associadas diretamente aos seus desempenhos efetivamente realizados dentro daquele ambiente empresarial competitivo onde atuam diariamente lutando por reconhecimento adequado às suas habilidades desenvolvidas através experiências acumuladas durante suas trajetórias pessoais variadas apresentadas diversas vezes perante olhares críticos externos constantes observadores atentos dispostos sempre avaliar potenciais riscos associados essas mudanças sociais esperadas vindouras esperados futuramente diante novas realidades emergentes presentes nesses campos profissionais diversos explorados atualmente pelas populações marginalizadas historicamente marginalizadas em nossa sociedade brasileira contemporânea . Agora sim começamos perceber realmente situação nua crua exposta diante nossos olhos pois muitos aceitam discutir abertamente temas relacionados ao racismo estrutural existente na nossa cultura nacional vigente hoje , assistindo filmes abordando questões aflitivas oriundas desse tema polêmico debatido constantemente nas mídias sociais ; publicando frases contra discriminações sistemáticas ; vibrando juntos quando vejam representações positivas emergentes brotando novas vozes certas áreas sociais específicas frequentemente silenciadas antes desse assunto controvertido finalmente ganhar destaque merecido lugares importantes neste debate amplo atual contemporâneo acontecendo atualmente nos meios digitais modernos usados amplamente pelos novos jovens ativistas progressistas buscando transformar realidades locais injustas enfrentadas pelas comunidades minoritárias marginalizadas presentes atualmente nessas áreas urbanas densamente povoadas brasileiras contemporâneas . Contudo , viver verdadeiramente igualdade plena vai muito além colocar apenas alguém negro numa fotografia bonita ; trata-se aceitar plenamente permitir total autonomia escolha enquadramento desejado previamente estabelecido segundo critérios próprios individuais criados livremente baseados experiências pessoais vividas diante sociedade desigual enfrentada diariamente todos nós aqui presentes nesse cotidiano complexo pluralista atual brasileiro diversificado culturalmente hoje . Não se trata simplesmente oferecer cadeira qualquer ; implica reconhecer genuinamente possibilidade ocupar cargo principal liderança máxima naquela reunião importante formal planejada previamente organizada neste espaço institucional reservado exclusivamente aqueles considerados adequadamente competentes suficientes suportarem pressão alta exigida neste campo competitivo desafiador existente actualmente na nossa realidade social complexa brasileira moderna contemporânea atual .

E talvez esteja esta verdade reveladora incomodando tanto profundamente arraigada nossas estruturas sociais hierárquicas tradicionais patriarcais predominantes impiedosas dominantes espaços ocupacionais competitivos dirigidos usualmente homens brancos privilegiados hegemônicos locais práticas antigas sistemáticas estabelecidas há gerações : preconceitos nunca temerão diversidade per si mesma ; eles temerão profundamente igualdade funcionando plenamente efetivamente operante capaz transformar arranjos pré-existentes muito antigos estabelecidos historicamente hierarquias impostas brutalmente sobre esses corpos marginalizados vítimas exclusivas dessas injustiças sistemáticas perpetuadas continuamente através séculos passados sem serem questionadas criticamente pela maioria sociedade dominante até aqui presente hoje discutindo sobre essas questões cruciais relevantes importantes emergentes constantemente debatidas nesses tempos modernos atuais recentes vivenciados agora sob novas perspectivas apresentadas amplamente abrangendo todas esferas sociais pertinentes relacionadas diretamente questão racial presente dia-a-dia vivendo intensamente cada vez mais nos contextos urbanos brasileiros contemporâneos atuais.” (*) Rollo é ator profissional e ex-integrante do Conselho Estadual de Política Cultural do RJ na cadeira do Audiovisual. E participa da produção do Espaço de Cinema Cavídeo em Vicente de Carvalho, Rio.

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