Nos tempos atuais de transição, uma indagação precisa ser feita de forma direta: quem realmente detém o poder no governo? As eleições de 25 de outubro forneceram uma resposta inequívoca. O presidente Lula, com 64.256.232 votos, correspondendo a 51,79% dos votos válidos, foi escolhido após uma campanha onde a população rejeitou o projeto de ajuste fiscal de R$ 200 bilhões proposto por Flávio Bolsonaro. O ministro da Fazenda não foi incumbido desse mandato. Dario Durigan não obteve nenhum voto que lhe conferisse autoridade sobre a política econômica do país, e isso deve ser lembrado.
Mas por que esse lembrete é tão importante neste momento? Desde que surgiu a possibilidade de o economista André Lara Resende apresentar uma proposta a Lula visando à redução dos juros e do custo da dívida pública, o ministro tem se apropriado do tema como se fosse exclusivamente seu. Ele afirmou que “nenhuma dessas ideias, como tabelamento de juros, está na mesa do presidente”, além de mencionar que não há reuniões programadas entre Lula e o economista. Sua postura sugere, implicitamente, que não concorda com a proposta. O presidente do PT, Edinho Silva, declarou que Durigan é o único a falar em nome do governo na área econômica. Em uma situação normal, um ministro fala em nome do governo porque possui essa autorização do presidente; ele não tem autonomia para decidir quem pode ou não dialogar com o chefe da República.
É intrigante e preocupante que um ministro se sinta à vontade para descrever “a mesa do presidente”. Somente Lula é quem determina quais assuntos estão ou não sob sua consideração. A proposta de Lara Resende sugere uma trajetória clara para redução da Selic — atualmente em 13,75% — para cerca de 7,5% ao longo de 12 meses, além da criação de um Conselho Fiscal e Monetário Nacional para coordenar as políticas fiscal e monetária. Tal plano merece ao menos ser debatido. Lara Resende é um profissional respeitado na área financeira; ele já ocupou posições importantes como ex-presidente do BNDES e ex-diretor do Banco Central, sendo um dos idealizadores do Plano Real. Recentemente, José Sérgio Gabrielli, coordenador do programa governamental de Lula, declarou em um documento que tal proposta “merece atenção especial”. Quando alguém tão próximo ao projeto que levou Lula à presidência destaca a importância dessa ideia, é inaceitável que um ministro tente encerrar a discussão antes mesmo dela começar.
Na minha análise, as afirmações do ministro coincidem quase que perfeitamente com aquilo que o mercado financeiro deseja ouvir. A Faria Lima não quer ver os juros caírem, pois isso afeta seus lucros; tampouco deseja ver resolvido o embate entre política fiscal e monetária, já que essa disputa beneficia aqueles que emprestam dinheiro ao governo. Assim sendo, quando o ministro responsável pela pasta mais delicada da economia reage prontamente a uma proposta que ameaça essa dinâmica de rendimento elevado, é válido questionar para quem ele realmente está respondendo.
A população traz uma resposta significativa: conforme dados da Serasa, em setembro o Brasil alcançou a marca recorde de 84,2 milhões de inadimplentes, acumulando R$ 597,4 bilhões em dívidas — média de R$ 7.093,83 por pessoa. Esses números refletem os impactos dos juros altos sobre a sociedade. Aqueles que recorrem ao crédito enfrentam taxas exorbitantes que corroem suas rendas; os que evitam tomar empréstimos veem seu consumo estagnado e suas oportunidades profissionais limitadas. Os brasileiros não necessitam ser especialistas em macroeconomia para expressar seu desejo: eles anseiam pelo fim das taxas excessivas. Esse desejo representa claramente o anseio da maioria que apoiou Lula durante as eleições.
Lula foi eleito para implementar um governo distinto, longe das práticas austeras que levaram ao impeachment de Dilma Rousseff. Sua campanha se baseou na rejeição à política fiscal restritiva e aos cortes orçamentários drásticos. Caso o novo governo inicie sua trajetória com uma política econômica ditada por veto ministerial, a mensagem enviada aos eleitores será clara: seu voto terá menos peso diante das pressões do mercado financeiro. Aqueles cidadãos que foram às ruas enfrentar ameaças e repressões para garantir a vitória de Lula poderão sentir-se traídos.
Não estou afirmando que o presidente deve adotar imediatamente o plano de Lara Resende sem discussão ou ignorar os riscos associados à proposta. Esta reconhece os potenciais desafios como fuga de capitais e pressão sobre o câmbio e sugere utilizar reservas internacionais para mitigar esses choques. Por isso mesmo é fundamental abrir espaço para um debate amplo envolvendo técnicos, economistas e movimentos sociais antes de descartar qualquer ideia apenas com uma declaração ministerial. O essencial é assegurar que o governo tenha direção definida e não seja dominado pela influência da Fazenda.
Lula possui legitimidade popular suficiente para considerar as sugestões de Lara Resende e promover um debate sobre as taxas de juros antes de decidir como proceder. É responsabilidade dele reassumir as rédeas da política econômica e lembrar à militância que seu governo pertence ao povo brasileiro.

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