Relatório confirma gaiolas para migrantes em Alligator Alcatraz

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O Escritório do Inspetor-Geral do Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos confirmou, em relatório de 11 de setembro, que 79 migrantes detidos no centro conhecido como Alligator Alcatraz foram colocados em pequenas estruturas metálicas entre 17 de julho de 2025 e 18 de janeiro de 2026. As gaiolas tinham cerca de 1,30 metro por 1,30 metro e 2,36 metros de altura.

A instalação ficava em Ochopee, nos Everglades da Flórida, e funcionou como centro estadual de detenção migratória dentro da ofensiva anti-imigração de Donald Trump. O relatório registrou confinamentos de alguns minutos a quase duas horas e disse que o uso dessas estruturas é inédito entre os centros de detenção já inspecionados pelo órgão.

A caixa virou política pública

Funcionários chamavam as estruturas de “áreas de acalmamento”. O próprio relatório federal, porém, encontrou ao menos um caso em que a gaiola pode ter sido usada como punição, depois que um detido passou 26 minutos ali por não obedecer a uma ordem.

A política afixada no local dizia que a cela servia para o detido refletir sobre suas escolhas de comportamento, administrar emoções e reduzir estresse. A frase burocrática cobria uma prática de confinamento físico em espaço menor que muita cabine telefônica.

O inspetor-geral afirmou que o uso dessas estruturas “não se alinha” aos padrões de tratamento humano e recomendou que fossem abandonadas para qualquer finalidade. As dez recomendações do órgão foram encerradas administrativamente porque o centro deixou de operar em junho de 2026.

Sem condenação penal

A detenção migratória nos Estados Unidos envolve processo civil e administrativo, não pena criminal. Esse ponto desmonta a linguagem usada pelo governador republicano Ron DeSantis e por sua equipe para apresentar os detidos como ameaça pública.

Dados do Transactional Records Access Clearinghouse, da Universidade de Syracuse, mostravam que 52.504 dos 70.766 detidos pelo Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas em 25 de janeiro de 2026 não tinham condenação criminal. A proporção era de 74,2%.

A diferença importa porque o discurso oficial transformou um processo administrativo em rótulo penal. Pessoas sem condenação passaram a ser tratadas como criminosos perigosos antes de qualquer desfecho sobre deportação.

DeSantis defendeu o confinamento

Alex Lanfranconi, diretor de comunicações de DeSantis, disse que a mídia de esquerda queria focar em uma área de confinamento para “imigrantes criminosos violentos” que, segundo ele, não conseguiam permanecer pacíficos enquanto aguardavam deportação. Ele afirmou ainda que a Flórida tornaria a área “ainda menor” se pudesse.

A fala expõe o mecanismo político do caso. Primeiro, o governo estadual descreve migrantes como criminosos violentos. Depois, justifica uma punição física sem condenação penal.

O Departamento de Segurança Interna respondeu que Alligator Alcatraz seguia os mesmos padrões federais aplicados em governos anteriores, incluindo os de Joe Biden e Barack Obama, e negou condições desumanas. O relatório do próprio inspetor-geral do departamento registrou falhas em saúde ambiental, unidades especiais, atendimento médico, alimentação, higiene pessoal e recreação.

Calor, insetos e falta de água limpa

A Anistia Internacional já havia documentado em dezembro de 2025 relatos sobre a “caixa”, descrita por detidos como estrutura externa usada como punição. A organização afirmou que pessoas eram colocadas ali expostas ao sol, ao calor, à umidade e a insetos, às vezes com mãos e pés presos a restrições no chão.

O relatório federal não confirmou todos esses relatos, mas registrou que dois senadores haviam cobrado explicações em março de 2026 sobre denúncias de punição, sol direto, altas temperaturas, umidade, insetos, restrições por horas e negação de comida ou água. O órgão disse que não conseguiu confirmar nem refutar essas alegações específicas com os detidos entrevistados no dia da inspeção.

A inspeção confirmou outras condições materiais. Seis dos oito migrantes entrevistados disseram não ter acesso a água potável limpa. Sete responderam que a instalação não era limpa.

Os detidos tomavam banho apenas três vezes por semana, às segundas, quartas e sextas. A equipe do inspetor-geral também encontrou pequenos insetos no teto das áreas de banho.

O jogo de empurra

A Flórida operava o centro por meio da Divisão de Gestão de Emergências. O Departamento de Segurança Interna alegou que o estado mantinha autoridade sobre as operações diárias, mas o inspetor-geral apontou sinais de controle federal.

Todos os detidos eram migrantes sob custódia do ICE, sigla em inglês do Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas. O manual entregue aos presos dizia que a instalação era um centro do ICE, agentes federais estavam presentes e acordos com agências da Flórida previam atividades supervisionadas e dirigidas pelo órgão federal.

O financiamento também prende Washington ao caso. A Agência Federal de Gestão de Emergências obrigou US$ 608,4 milhões para a Divisão de Gestão de Emergências da Flórida em 30 de setembro de 2025 e desembolsou US$ 58,3 milhões em 15 de maio de 2026 para custos operacionais permitidos.

O centro abriu em 3 de julho de 2025 e encerrou operações em junho de 2026. Seu fechamento não encerrou a política que o produziu.

O próprio inspetor-geral citou outro centro estadual, Baker Correctional Institution, chamado pela Flórida de Deportation Depot. A unidade continuava operando em Sanderson e mantinha 1.028 detidos em 27 de agosto de 2026, sem inspeção interna do ICE prevista para os anos fiscais de 2026 ou 2027.

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