Boric aponta o dedo para o extremismo da moderação após revés no Chile

0 0

Em março deste ano, Gabriel Boric, ex-presidente do Chile, deixou o Palácio de La Moneda após a vitória da direita liderada por José Antonio Kast nas eleições. Assim, encerrou-se um ciclo que se iniciou com o estallido social. Fora da administração pública, Boric retornou à cena política com uma declaração impactante: o fanatismo pela moderação, no final das contas, não leva a lugar algum.

A afirmação foi feita durante um debate na La Huella de Seregni, no Uruguai, onde também ocorreu o relançamento da revista Nueva Sociedad. Ao lado da senadora Constanza Moreira, do Frente Amplio, Boric convocou as correntes progressistas a defenderem suas posições com orgulho.

O jornal uruguaio que cobriu o evento destacou a mensagem de Boric. O ex-mandatário enfatizou que a esquerda na América Latina não deve aceitar como sua a degradação moral que a direita tenta impor.

Boric governou o Chile entre 2022 e 2026 e se tornou um símbolo para uma nova geração que saiu das ruas em busca de mudanças no Estado. Sua saída coincidiu com o retorno da direita ao poder e reabriu discussões sobre os custos da contenção política.

A frase sobre moderação ressoou além das fronteiras chilenas. O historiador indiano Vijay Prashad, diretor do Instituto Tricontinental, republicou a declaração e afirmou que Boric estava correto em sua análise.

Prashad argumentou que adotar posturas centristas e moderadas dentro do sistema capitalista enfraquece tanto a esquerda quanto o centro-esquerda, impedindo-os de utilizar seu poder governamental para construir uma base sólida em favor da classe trabalhadora. Sem essa base, os governos perdem sua conexão com a sociedade.

Ele também anunciou um dossiê do Tricontinental previsto para o próximo ano que discutirá três tipos distintos de poder: social, governamental e estatal. A distinção entre esses poderes costuma ser negligenciada pela esquerda ao entrar no Palácio.

Esse dilema não é exclusivo do Chile; trata-se de um desafio enfrentado pela esquerda globalmente. A direita não enfrenta as mesmas barreiras estruturais que inibem as iniciativas progressistas.

O grande capital não está interessado em propostas esquerdistas; ele busca apenas concentração de riqueza e poder. Neste cenário, a esquerda deve atuar como uma contrapartida a esse sistema opressivo.

Assim sendo, muitas vezes ela se vê forçada a adotar uma postura moderada não porque isso seja uma virtude intrínseca, mas sim porque ainda não venceu a batalha das ideias.

A luta ideológica prossegue e revela as dificuldades da esquerda em triunfar nessa arena. O capital possui recursos para comprar ideias e controlar meios de comunicação globalmente.

Aqueles que controlam os canais de informação definem o que é considerado aceitável. No contexto capitalista, tal aceitação frequentemente implica em recuo nas demandas sociais.

Boric descreveu esse retrocesso utilizando uma metáfora clara: corremos o risco de nos perdermos ao tentar captar atenção rapidamente, abandonando as convicções que realmente defendemos e nos deixando levar pelas tendências passageiras.

Ele observou que parece haver uma sensação de desorientação entre os progressistas. Contudo, isso não implica em desaparecimento; é um convite à reflexão sobre como reencontrar seu caminho.

Boric destacou que os movimentos sociais não começam do zero a cada geração; é fundamental compreender os impactos dos processos históricos já vividos.

É viável imaginar um mundo melhor; é necessário ir além das críticas ao que está errado na sociedade.

Ele argumentou que o discurso não deve ser dominado pelo catastrofismo; ao contrário da direita, os movimentos progressistas devem ser capazes de vislumbrar um futuro otimista.

A advertência seguiu na mesma linha: o fanatismo pela moderação acaba por resultar em estagnação.

A frase carrega um tom amargo proveniente da experiência de quem já ocupou cargos políticos e sentiu as limitações impostas. Modernizar o Estado para atender às demandas dos cidadãos não deve significar perder contato com as bases sociais e renunciar à rebeldia necessária.

Boric citou como exemplo o atual governo do socialista Zohran Mamdani em Nova York. O foco não era geográfico, mas sim a tensão entre administração eficaz e mudança disruptiva.

“Não devemos permanecer exatamente os mesmos”, afirmou Boric. É crucial estreitar laços com as novas gerações e com os trabalhadores.

Além disso, é essencial participar ativamente na transformação dos modelos produtivos respeitando os limites do planeta; sem isso, qualquer discurso sobre o futuro se torna mero marketing vazio.

Ele enfatizou a importância de evitar tornar-se aquilo que sempre criticamos ao assumir cargos públicos. Manter coerência entre discurso e ação é fundamental para garantir integridade política.

No debate proposto por Constanza Moreira, foram abordadas as armadilhas onde a moderação frequentemente se oculta. “Precisamos escapar dessa prisão econômica”, disse ela ao discutir política.

Segundo Moreira, um dos grandes êxitos do liberalismo foi aprisionar a política sob os domínios da economia. Enquanto essa situação persistir, restará à esquerda apenas governar aquilo que permanece livre desse cárcere econômico.

A senadora descreveu a longa trajetória do progressismo latino-americano como uma rica experiência para seus participantes. Ela destacou movimentos como sindicalismo, feminismo e ativismo estudantil como fontes essenciais de ação coletiva voltada à esquerda.

Correndo alinhada com Boric, Moreira afirmou que aprendemos mais com nossos fracassos do que com nossas vitórias; porém esse aprendizado não pode servir como justificativa para recuos constantes.

Ela expressou preocupação ao constatar que atualmente a direita vive seu melhor momento neste século. A retórica do medo tem sido fundamental para seus sucessos eleitorais.

A senadora vinculou essa vitória à ausência de um modelo alternativo sólido por parte da esquerda. Sem horizontes próprios claros, prevalece apenas o medo gerado pelo outro lado.

  • Um exemplo disso pode ser observado nas eleições regionais onde segurança pública foi transformada em pânico constante e se tornou parte central das propostas direitistas

Moreira sugeriu cultivar paixões alegres como forma de mobilização popular; apatia e repugnância reduzem essa capacidade mobilizadora.

A frustração gerada pelo capitalismo resulta numa resistência crescente à direita

“O mais bonito que o Uruguai pode oferecer ao mundo é sua capacidade de unir diferentes correntes no grande crisol das esquerdas”, disse ela.

Sua visão aponta essa hibridação como solução para os problemas atuais enfrentados pelos movimentos progressistas na região.

A crítica feita por Prashad desafia otimismo excessivo. Para ele, é crucial capacitar a classe trabalhadora com ferramentas necessárias para proteger seus interesses.

A moderação dentro da esquerda tende a enfraquecer essas ferramentas essenciais à luta social; eventualmente fortalece ainda mais a direita por não oferecer celeridade organizacional suficiente frente à agilidade do capital.

O capital concentra-se sem pedir autorização; adquire veículos midiáticos, partidos políticos e think tanks enquanto molda narrativas consideradas normais na sociedade.

  • A esquerda que aceita esse senso comum limita sua própria capacidade política

E assim entrega o poder governamental sem ter construído bases sólidas; acaba governando sobre estruturas herdadas enquanto perde oportunidades reais de transformação.

Boric defendeu, portanto, a importância da política como ferramenta essencial à transformação social — uma afirmação válida somente se essa transformação não for postergada até o próximo calendário eleitoral.

  • No Chile pós-2026 já podemos observar claramente os custos dessa procrastinação;

Kast assumiu em 11 de março com uma agenda focada em ordem pública, economia e imigração enquanto Boric refletia sobre seu próprio retrocesso após deixar La Moneda.

  • Esse dilema ultrapassa Santiago;

Pode-se observar questões semelhantes atravessando governos progressistas na América Latina bem como coalizões social-democratas na Europa.

  • Quando as lutas ideológicas parecem perdidas em nível superficial…

The moderation is often mistaken for realism…

  • Nesse contexto realismo se torna sinônimo daquela linguagem adotada por quem aceita passivamente mapas impostos pelo adversário;

A análise feita por Prashad destaca isso abertamente:

  • Sem um bloco histórico representativo da classe trabalhadora…

The left government fails to establish deep-rooted connections with society…

  • E assim transforma-se numa mera passagem transitória…

The passage has been all too brief across the continent.

  • Boric agora discute sobre oposição; Moreira propõe sair das limitações econômicas impostas à política;

The left that moderates to survive in media seldom thrives in governance…

  • A direita nunca precisa dessas concessões;

The right arrives equipped with money and fear…

  • E transforma medo em votos;

The left that only responds cautelosamente perde tempo.

  • E neste século…o tempo tem sido aliado daqueles que concentram suas riquezas!

Cabe ressaltar: O alerta enviado de Montevidéu nomeia claramente este impasse.

The obsession with moderation is not prudence…

Happy
Happy
0 %
Sad
Sad
0 %
Excited
Excited
0 %
Sleepy
Sleepy
0 %
Angry
Angry
0 %
Surprise
Surprise
0 %

Average Rating

5 Star
0%
4 Star
0%
3 Star
0%
2 Star
0%
1 Star
0%

Deixe um comentário