Recentemente, o People’s Daily intensificou suas exigências sobre as empresas de inteligência artificial, sugerindo que termos como Token, Agent e LLM sejam substituídos por equivalentes em chinês. Para companhias brasileiras ou estrangeiras que comercializam software na China, essa mudança representa mais do que uma simples alteração de linguagem; pode resultar em custos elevadíssimos relacionados à interface, documentação, suporte, treinamento e aspectos legais.
Essa posição foi expressa em um artigo publicado em 6 de agosto por Li Wei no People’s Daily Online. O texto argumenta que o uso de termos em inglês compromete o “poder discursivo” da China no setor tecnológico, dificultando a compreensão do público e diminuindo a relevância da língua chinesa. Termos como Token, Agent e LLM são citados como exemplos de vocábulos que passaram a ser comuns em materiais educacionais, políticas públicas e na comunicação diária sem uma tradução correspondente estabelecida. A interpretação mais simples é que todo país tem o direito de adaptar a tecnologia à sua língua nativa. Assim como “computador” foi traduzido para “diannao”, significando cérebro elétrico, e “internet” ganhou seu próprio termo em chinês. Essa adaptação visa facilitar o acesso da população à tecnologia e reduzir a dependência cultural.
No entanto, o contexto é crucial. Não se trata de um grupo de tradutores propondo um glossário; é o principal veículo de comunicação do Partido Comunista Chinês enquadrando termos técnicos dentro das discussões sobre soberania e poder cognitivo. Na área da inteligência artificial, onde a nomenclatura pode influenciar produtos, contratos e regulamentações, nomear é também uma forma de governança.
A tradução como requisito essencial
Token não é apenas um termo técnico; ele representa unidades monetárias, limites contextuais, métricas de desempenho e variáveis contratuais na programação de aplicativos. Agent vai além do significado habitual; no contexto da IA, refere-se a sistemas capazes de planejar ações e executar tarefas com autonomia. Já LLM (large language model) abrange toda uma categoria relacionada a produtos, riscos e regulação.
Se Pequim decidir que a linha editorial do People’s Daily se torne uma norma obrigatória para contratações públicas ou critérios regulatórios setoriais, as equipes responsáveis por produtos terão que se adaptar rapidamente. Elementos como botões, tutoriais, telas para desenvolvedores e documentos legais precisarão ser reescritos para alinhar-se ao novo vocabulário estipulado.
Essa barreira técnica não impede a entrada de empresas estrangeiras no mercado; ela simplesmente exige que essas organizações reestruturem sua linguagem para se adequar às novas regras. O controle sobre o glossário significa também o controle sobre a percepção do produto pelo consumidor.
Para uma startup brasileira que deseja comercializar serviços financeiros ou produtos na China, essa transformação não seria trivial. A equipe precisaria garantir que suas versões em chinês não apenas fossem traduzidas corretamente, mas também estivessem alinhadas conceitualmente com os termos aceitos localmente. Isso exigiria a colaboração de engenheiros, tradutores especializados, advogados e designers locais—transformando palavras em um custo contínuo.
A regulação já está em vigor
A China já possui regulamentações específicas para serviços de IA generativa disponíveis no território nacional desde 15 de agosto de 2023. Essas regras estabelecem obrigações relacionadas à segurança dos dados e cooperação com as autoridades locais. Produtos importados que não estiverem em conformidade poderão sofrer penalidades técnicas. Além disso, desde 2025 haverá normas para rotulagem clara de conteúdos gerados por IA com metadados visíveis nas plataformas digitais. A campanha contra termos em inglês se insere nesse contexto regulatório—não aparecendo como censura direta ou tarifas comerciais—mas atuando na esfera mais sutil: a linguagem usada nos produtos. Aqueles que resistem parecem estar defendendo jargões estrangeiros; aqueles que aceitam internalizam as normas linguísticas impostas pela China.
O People’s Daily afirma que sua proposta não visa eliminar totalmente o inglês das trocas acadêmicas ou colaborações internacionais. O texto sugere um modelo dual onde o inglês continua sendo usado em contextos globais enquanto os termos chineses são priorizados na comunicação pública.
Ainda não há nenhuma ordem nacional exigindo que todas as empresas removam termos como “LLM” ou “agent” de seus produtos. No entanto, existe uma pressão política significativa proveniente da mídia partidária dentro de um ambiente regulatório onde os sinais emitidos pelo partido muitas vezes antecipam ações administrativas futuras.
A interoperabilidade como solução
Do outro lado dessa questão cultural não há uma campanha ocidental despretensiosa; o domínio do inglês na computação decorre do poder acumulado por universidades e empresas dos Estados Unidos e Europa ao longo das décadas. Isso gera uma dependência real para muitos países do Sul Global.
No dia-a-dia da engenharia tecnológica, os termos compartilhados têm um papel fundamental: permitem que desenvolvedores ao redor do mundo consigam acessar as mesmas documentações técnicas, comparar preços por token e integrar diferentes modelos sem ter que reinventar a terminologia em cada nova jurisdição.
A defesa pela interoperabilidade não implica submissão aos padrões americanos; trata-se sim de proteção contra feudos técnicos criados por potências globais tentando impor suas próprias regras linguísticas como filtros comerciais. A consequência disso recai sobre pequenas empresas e desenvolvedores independentes nos países menos influentes no cenário global.
O Brasil já vivencia essa situação sob outra perspectiva. Companhias nacionais adaptam seus softwares às exigências da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), notas fiscais eletrônicas e outras regulamentações setoriais—um processo caro e complexo. Contudo, na China essa imposição pode alcançar até mesmo os nomes utilizados nos componentes da inteligência artificial.
A batalha pela definição da IA
A expressão “discourse power” desempenha um papel central nesse debate; é uma tradução política que reflete ambições mais amplas. A intenção da China vai além de ser apenas consumidora ou produtora de tecnologia: busca tornar-se uma referência autoritária na definição dos conceitos relacionados à inteligência artificial.
Essa meta possui alicerces concretos: a China investe fortemente em modelos locais, chips fabricados internamente e aplicações industriais utilizando corpus na língua chinesa. A escolha vocabular se torna parte desse desenvolvimento estratégico—se “Token” passar a ser chamado “ciyuan”, “Agent” se transformar em “corpo inteligente”, ou ainda se LLM for adaptado apenas como modelo grande de linguagem em chinês, isso afetará diretamente toda a cadeia produtiva nacional.
Portanto, o People’s Daily não está apenas buscando clareza para os usuários comuns; está definindo as diretrizes linguísticas para a próxima fase do desenvolvimento da inteligência artificial na China. Para empresas internacionais, isso é um aviso claro: operar no mercado chinês exigirá mais do que conformidade quanto ao conteúdo; será imperativo adotar a terminologia aprovada pelo Estado.
Ainda resta saber se essa pressão permanecerá como uma iniciativa editorial ou se evoluirá para normas rigorosas nas esferas pública e técnica—um desdobramento que definirá os custos operacionais para quem deseja atuar legalmente neste vasto mercado digital controlado globalmente pela China.
