OpenAI expande suas atividades no Brasil em meio a incertezas políticas nos EUA

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No dia 17 de agosto, a OpenAI oficializou suas operações comerciais no Brasil, transformando o país em um ativo estratégico no cenário geopolítico. Durante o evento realizado no hotel Rosewood, em São Paulo, a empresa destacou que os brasileiros enviam cerca de 215 milhões de mensagens diariamente ao ChatGPT. Esse número não apenas demonstra a grande escala de uso, mas também revela uma dependência significativa: empresas, desenvolvedores e instituições públicas no Brasil podem ficar vulneráveis a decisões políticas dos Estados Unidos em relação a modelos de inteligência artificial, algo que já foi evidenciado em junho com a Anthropic. A OpenAI promoveu o Brasil como um hub para suas operações na América Latina e anunciou que este é o primeiro escritório da empresa fora dos Estados Unidos.Um número que se torna defesa

A estatística mais impactante revela que o Brasil se posiciona entre os três maiores mercados do ChatGPT, com 50 milhões de usuários mensais. O país ocupa a segunda posição mundial em relação ao número de desenvolvedores utilizando as ferramentas da OpenAI e lidera no volume diário de mensagens enviadas à plataforma. De acordo com informações fornecidas pela própria empresa, esse volume saltou de 140 milhões de mensagens diárias no ano anterior para os atuais 215 milhões. Esse crescimento substancial justifica não apenas a expansão comercial da OpenAI, mas também sua busca por uma certa proteção política. À medida que mais bancos, hospitais, prefeituras e startups brasileiras integram o ChatGPT em suas operações cotidianas, o custo diplomático associado a uma possível restrição imposta pelos EUA aumenta significativamente.

Jason Kwon, Chief Strategy Officer da OpenAI, tem atuado como defensor dessa estratégia. Ao ser questionado sobre os riscos associados à perda de acesso das empresas brasileiras devido a decisões inesperadas do governo americano, ele argumentou que seria contra os interesses dos EUA restringir o uso global de IA avançada num cenário competitivo internacional. Essa resposta não elimina completamente os riscos envolvidos; ela simplesmente sugere que os interesses americanos em disseminar tecnologia podem prevalecer sobre um impulso maior por controle. A perspectiva apresentada por Kwon é conveniente para a OpenAI, que precisa demonstrar ao maior mercado latino-americano que sua infraestrutura política é tão robusta quanto sua infraestrutura técnica. Contudo, um recente incidente trouxe insegurança sobre essa confiança.

O precedente da Anthropic

No dia 12 de junho, o governo dos Estados Unidos estabeleceu controles de exportação para os modelos Claude Fable 5 e Claude Mythos 5 da Anthropic. Essa decisão impactou usuários tanto dentro quanto fora do território americano. Como não havia como verificar nacionalidades em tempo real, a Anthropic suspendeu o acesso aos dois modelos para todos os usuários. Embora essa medida tenha sido revertida no final do mês — com o acesso sendo restabelecido globalmente em 1º de julho –, o dano político já havia sido causado. Um modelo utilizado em produtos e pesquisas pôde ser desativado devido a uma decisão vinda de Washington. Para os leitores brasileiros, esse é um ponto crucial: se uma empresa varejista utiliza IA para atendimento ao cliente ou se uma fintech automatiza suas análises internas, qualquer interrupção nesse serviço não é meramente teórica; resulta em filas, retrabalho e prejuízos financeiros.

A OpenAI busca mitigar esses riscos através da ampliação de sua presença local por meio de parcerias e escalabilidade. No entanto, ter uma filial em São Paulo ou firmar acordos com empresas brasileiras não confere ao Brasil controle sobre as decisões referentes aos controles de exportação ou determinações relativas à segurança nacional tomadas nos EUA.

Parcerias brasileiras entram em cena

A estratégia inclui colaborações com diversas instituições públicas e privadas. Recentemente, a OpenAI firmou um acordo com o Nubank para criar um assistente bancário baseado em IA que atuará como um consultor financeiro virtual. Além disso, duas instituições brasileiras foram selecionadas para participar de um programa internacional destinado ao financiamento de 14 iniciativas de pesquisa. O Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA) irá investigar como instituições científicas podem transformar o acesso à IA em avanços práticos na pesquisa científica, focando em aspectos como suporte técnico e infraestrutura local. Por sua vez, o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HCFMUSP) realizará uma avaliação controlada antes da implementação de um protótipo destinado à organização de informações clínicas no Sistema Único de Saúde (SUS), utilizando dados sintéticos ou devidamente desidentificados enquanto mantém supervisão médica humana. Aqui reside um contrapeso significativo: IMPA e HCFMUSP não são apenas exemplos da adoção tecnológica; se levarem a sério aspectos como governança e proteção dos dados, podem trazer discussões relevantes sobre interesses públicos brasileiros ao invés de aceitar passivamente soluções importadas do Vale do Silício.

Este é o limite entre cooperação e dependência tecnológica. O Brasil possui volume suficiente para negociar condições favoráveis e dispõe do capital humano necessário para testar novas tecnologias enfrentando desafios locais. Contudo, essa força só se converte em soberania se acompanhada por exigências claras quanto à portabilidade das soluções adotadas e medidas efetivas como auditoria e proteção de dados.

A verdadeira disputa é pelo controle

Kwon também foi indagado sobre modelos mais abertos provenientes da China, como Qwen da Alibaba e Kimi da Moonshot AI. Ele argumentou que operar esses sistemas localmente envolve custos significativos relacionados à infraestrutura necessária. Essa questão reflete uma preocupação crescente entre as empresas brasileiras: optar por depender de um modelo proprietário americano que oferece suporte imediato ou buscar alternativas mais abertas que demandam investimentos internos maiores e proporcionam menor exposição às decisões do governo dos EUA.

Não existe uma solução simples para essa questão complexa. Modelos abertos podem apresentar custos elevados relacionados à hospedagem e manutenção contínua enquanto modelos fechados oferecem praticidade imediata mas concentram poder nas mãos de entidades estrangeiras cuja jurisdição está além do controle dos usuários brasileiros.

A OpenAI reconhece que o Brasil não pode ser tratado como um mercado secundário. Os impressionantes 215 milhões de mensagens diárias são mais do que números; eles representam influência política significativa. A empresa pode argumentar junto ao governo americano que restringir o acesso ao ChatGPT no Brasil implicaria prejudicar consumidores e instituições locais em um dos principais mercados digitais globais.

Esse raciocínio reflete uma estratégia bem calculada: usuários brasileiros servem como prova da relevância global do produto enquanto empresas nacionais tornam-se argumentos contra possíveis restrições governamentais. Por outro lado, caso o Brasil não desenvolva uma política industrial e digital própria eficaz estará correndo o risco de se tornar apenas um valioso dependente nesse cenário.

Diante disso, a recente declaração da OpenAI deve ser interpretada não apenas como uma celebração pela adoção tecnológica mas sim como parte integrante das negociações pelo poder na era digital. Para as empresas nacionais envolvidas na utilização dessas tecnologias emergentes, surge imediatamente uma questão prática: quais processos podem ser afetados caso um modelo estrangeiro seja desativado por ordem governamental? Quem definirá as alternativas viáveis? E até quando o Brasil aceitará estar sob a influência diplomática externa sem tomar ações decisivas?

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