Rogerio Dultra: O desafio da equipe nacional “brasileira

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Por Rogério Dultra dos Santos

No último domingo, durante a partida contra a Noruega, ficou evidente uma desorientação coletiva na seleção brasileira, que não parecia saber como reagir quando a bola estava nos pés do adversário. Tal situação é algo que nunca havia presenciado com a equipe nacional, exceto de maneira mais sutil no primeiro tempo do jogo contra o Japão.

A Noruega praticamente dominou o jogo, colocando a seleção brasileira em um estado de vulnerabilidade.

Confesso que só acompanho futebol durante as Copas do Mundo. Contudo, desde o emblemático 7 a 1 em 2014, percebo que a equipe brasileira frequentemente sucumbe devido à desorganização alarmante e intencional da CBF, cujos principais ex-dirigentes enfrentam problemas legais e estão presos ou foragidos.

Dessa vez, apesar da continuidade problemática das práticas da cartolagem, parece que os desafios partiram internamente, diretamente do campo.

A posse de bola reduzida de apenas 35% revela uma mudança significativa na postura da equipe.

A seleção parece estar passando por um processo mais profundo do que uma simples colonização cultural que lhe retira a essência, transformando-a em um símbolo de covardia e indecisão. O técnico italiano pode ser visto apenas como um reflexo dessa situação.

Porém, afirmar que o problema reside unicamente na equipe é uma simplificação. Como diria o filósofo Immanuel Kant, isso é um epifenômeno: as dificuldades percebidas durante os jogos desta Copa são meramente superficiais.

Então, como podemos identificar o “noumeno”, ou seja, a questão central?

Alguns elementos para compreender essa situação já foram destacados pelo jornalista esportivo Juca Kfouri há alguns anos: a influência do patrocinador sobre as seleções e sobre a escolha de adversários e partidas amistosas, conforme um contrato estabelecido pela CBF.

Em 2014, por exemplo, a Nike tinha o poder de indicar até oito jogadores para a convocação, segundo informações do jornalista.

A situação envolvendo Neymar é apenas uma evidência clara de que os critérios utilizados para convocar jogadores há muito deixaram de considerar sua habilidade em campo ou qualidade técnica.

A predominância de decisões econômicas e negociais sobre critérios meritocráticos se tornou uma característica estrutural no futebol sob o comando da CBF.

De fato, faz tempo que a seleção se transformou em um negócio rentável para poucos indivíduos, mesmo sendo considerada um patrimônio público e um símbolo nacional.

No entanto, o que trouxe de novo a Copa de 2026 para nossa seleção? Foi apenas um agravamento do clima confuso que resultou em uma derrota trágica para a Alemanha em 2014?

Ou foi resultado da mudança de mentalidade promovida por um treinador que pode entoar o hino nacional mas desconhece as ricas tradições do futebol brasileiro e sul-americano?

Pessoalmente, não acredito nisso.

A Copa ocorrendo nos Estados Unidos sob a administração de Trump (junto ao Canadá e México), com o apoio submisso de Gianni Infantino, presidente da FIFA há uma década, atribui uma nova dimensão à problemática da seleção “brasileira”.

Minha hipótese — aparentemente óbvia — é que tanto a seleção quanto a CBF se tornaram ao longo dos anos não mais protagonistas, mas sim elementos secundários dentro de uma cadeia organizada pelo centro europeu (FIFA) com o intuito de induzir artificialmente à necessidade de consumo e expansão dos mercados consumidores globais.

Essa mudança no status do Brasil — passando de produtor central para uma posição periférica no cenário global do futebol — pode ser irreversível se continuarem as atuais condições normativas sem controle público sobre a CBF.

Um dos indícios mais alarmantes dessa transformação é o patrocínio massivo e envolvimento não só da seleção como também da maioria dos clubes brasileiros com as conhecidas casas de apostas.

No entanto, essa questão ainda precisa ser explorada em profundidade.

O que causou esse deslocamento na seleção? Por qual motivo ela foi submetida a uma radical alteração em seu estilo de jogo, sendo anteriormente reconhecida como pentacampeã e exportadora de talentos? Como pôde tornar-se tão medíocre ao ponto de ser dominada pela Noruega?

Esse debate precisa ser conduzido com seriedade e organização se quisermos resgatar o orgulho associado ao futebol nacional e afastar qualquer sensação de vergonha.

Achar que a responsabilidade recai apenas sobre o técnico é simplificar demais. Afinal, quem colocou essa figura na árvore?

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