Flávio Bolsonaro revela em Washington: foco é proteger a candidatura, não combater o aumento de tarifas no Brasil

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Nesta terça-feira (7), o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) fez a mais clara declaração até o momento sobre sua campanha em Washington contra as tarifas, revelando que suas motivações são eleitorais e não econômicas. Em sua apresentação na audiência pública do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), o pré-candidato à Presidência sugeriu que a implementação da tarifa fosse postergada — não por prejudicar o Brasil, mas porque sua aplicação agora afetaria o “cenário político” em um momento tão próximo das eleições de outubro.

Flávio, ao lado do irmão Eduardo Bolsonaro — deputado cassado que reside nos Estados Unidos e tem se empenhado há meses em favor de sanções e tarifas contra o Brasil —, expressou que o contexto atual é o menos propício para a imposição da tarifa. Essa mesma posição foi apresentada em um documento de 86 páginas submetido ao USTR na semana anterior, onde ele solicitou um prazo adicional de 180 dias, permitindo que a decisão fosse tomada após as eleições.

Um aspecto que faz com que este evento ressoe além do cenário político é a questão do timing. O senador chegou ao local da audiência às 11h — horário marcado para o início dos depoimentos —, mas seu discurso começou somente às 11h45, após solicitar formalmente ao USTR cinco minutos para se apresentar como senador e pré-candidato à Presidência, mencionando encontros prévios com Donald Trump.

Números que contradizem a narrativa “técnica”

Enquanto Flávio tenta argumentar que postergar a tarifa seria benéfico para o Brasil, dados divulgados nesta terça-feira pela Amcham Brasil (Câmara Americana de Comércio) revelam os impactos financeiros já causados pela escalada tarifária na economia nacional. A participação dos Estados Unidos nas exportações brasileiras caiu para 9,4% no primeiro semestre de 2026, atingindo seu menor nível desde 1997. As vendas do Brasil para o mercado americano totalizaram US$ 17,4 bilhões entre janeiro e junho, representando uma queda de 13% em comparação ao ano anterior, enquanto o comércio bilateral teve uma retração de 12,8%.

A pesquisa indica que os produtos afetados pelas tarifas enfrentaram uma diminuição de 16,6% nas vendas para os EUA, em contraste com uma queda menor de 8,7% nos itens não sujeitos às surtaxas. No que diz respeito às importações, os máquinas e motores americanos foram os mais impactados, sofrendo uma redução de 76%, resultando em uma perda de US$ 2,7 bilhões que afeta diretamente fornecedores norte-americanos e não apenas exportadores brasileiros.

Abrão Neto, presidente da Amcham, sintetizou a situação ao afirmar que os dados do semestre evidenciam a forte pressão sobre o comércio bilateral. Simultaneamente, o Brasil conseguiu compensar parte das perdas ao aumentar suas exportações totais em 11,5%, com destaque para a China — cujas compras de produtos brasileiros cresceram 21,9% — e a União Europeia com uma alta de 12,8%. Esse cenário retrata uma economia diante do impacto tarifário mas demonstrando habilidade em redirecionar seus fluxos comerciais para outros parceiros — um argumento oposto ao senso de urgência apresentado por Flávio em Washington.

Duas narrativas incompatíveis

A discrepância entre os dois eventos ocorridos no mesmo dia revela a fragilidade da retórica utilizada por Flávio nos últimos meses. Se as tarifas realmente fossem uma prioridade como ele afirma — visando proteger a economia brasileira e o setor produtivo — seu discurso no USTR teria se concentrado nos US$ 17,4 bilhões em exportações já perdidas ou nos empregos afetados nas cadeias produtivas da carne bovina, etanol e manufaturados. Contudo, sua argumentação girou em torno das eleições: a tarifa deveria ser adiada até depois do pleito.

Essa incoerência — entre um discurso voltado à proteção econômica e um pedido claro para adiamento por conveniência eleitoral — pode fornecer argumentos tanto ao governo quanto aos opositores dentro do próprio campo bolsonarista. Isso acontece poucos meses antes das eleições presidenciais nas quais Flávio busca se distanciar dos desgastes associados à sua própria imagem.

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