A jornada de Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos, apresentada por seus aliados como uma possível reviravolta em sua pré-campanha internacional, começou com um incidente político embaraçoso: não há encontro agendado com Donald Trump na programação oficial da Casa Branca.
Essa revelação desmonta a narrativa criada pelos assessores do senador do PL, que nos últimos dias tentaram vender a visita a Washington como um ato de força em meio à crise gerada pelo caso Daniel Vorcaro e pelo financiamento do filme Dark Horse, que retrata Jair Bolsonaro.
A agenda oficial da Casa Branca para esta terça-feira, 26 de maio, não inclui qualquer reunião entre Trump e Flávio. A falta desse encontro representa um revés para o senador, que busca recuperar seu prestígio após ser exposto por áudios e mensagens sobre sua relação com o ex-controlador do Banco Master.
Informações da Reuters indicavam que Flávio estava tentando marcar uma reunião com Trump em Washington, conforme relataram duas fontes. Essa viagem ocorre no contexto de uma das piores crises de sua candidatura presidencial, provocada pela divulgação de sua conexão com Vorcaro, um banqueiro detido e investigado no escândalo do Banco Master.
<pEntretanto, Flávio tentou desmentir que tivesse solicitado tal encontro. Ao ser questionado no Congresso se ele ou Eduardo Bolsonaro haviam pedido essa conversa, respondeu em inglês: “No, I didn’t ask anything. Nobody asked.” Essa declaração foi vista como uma tentativa de diminuir as expectativas em torno de uma agenda que seus apoiadores consideravam significativa politicamente.
Essa contradição ilustra o atual estado da pré-campanha. Inicialmente, aliados promovem a ideia de um encontro com Trump; depois, Flávio nega qualquer solicitação; e finalmente, a agenda oficial da Casa Branca confirma que o encontro não acontecerá.
A pressão é ainda mais intensa porque essa viagem foi anunciada como uma demonstração de prestígio internacional. Para um candidato sob forte escrutínio, ter uma foto ao lado de Trump poderia representar um trunfo político diante da base bolsonarista, especialmente num momento em que Flávio tenta mostrar que ainda possui força para desafiar Lula nas eleições de 2026.
Sem esse encontro agendado, a visita pode acabar se transformando no oposto: mais uma tentativa mal-sucedida de gerar um fato político enquanto o senador continua cercado por questionamentos sobre Vorcaro, o Banco Master e os altos valores envolvidos no financiamento do filme Dark Horse.
O caso Vorcaro atingiu Flávio em um aspecto crucial de sua candidatura. Informações da Associated Press indicam que o senador solicitou R$ 61 milhões (aproximadamente US$ 12 milhões) ao banqueiro para financiar o filme sobre Jair Bolsonaro. Ele nega qualquer irregularidade e afirma que se tratava de um projeto privado, financiado com recursos próprios e sem promessas de vantagens ilícitas.
A defesa não conseguiu evitar o desgaste porque Flávio havia tentado minimizar ou negar sua ligação com Vorcaro antes da divulgação dos áudios. A Reuters noticiou que o senador confirmou ter se encontrado com o banqueiro após sua prisão e soltura com tornozeleira eletrônica, alegando que a reunião teve como objetivo encerrar negociações para investimento no filme.
Esse histórico torna a viagem aos Estados Unidos ainda mais delicada. Flávio não partiu em um momento favorável, mas sim defensivo. Seu objetivo político parecia claro: tentar mudar a pauta do escândalo financeiro por uma imagem de articulação internacional com a direita ligada a Trump.
O problema é que a Casa Branca não confirmou essa agenda. Em política, expectativas não atendidas frequentemente geram efeitos adversos. A tentativa de demonstrar influência pode acabar revelando isolamento.
A imprensa brasileira já analisava a viagem como uma aposta arriscada. O InfoMoney reportou que Flávio viajou aos Estados Unidos na esperança de se encontrar com Trump durante a crise do Dark Horse, buscando conter os danos causados pelas revelações sobre seus contatos com Vorcaro.
A Folha também noticiou que o governo brasileiro considerava desfavorável uma possível reunião entre Trump e Flávio, mas não tomaria medidas para barrar esse encontro. A análise em Brasília era clara: uma conversa entre o presidente americano e um pré-candidato brasileiro poderia ser vista como um sinal político durante as eleições.
Agora sem nenhum encontro programado, as consequências recaem sobre Flávio. O senador embarcou cheio de expectativas, mas sem confirmação pública. Para seus opositores, isso reforça a imagem de uma candidatura tentando criar fatos para sobreviver ao desgaste interno.
A crise também ocorre em meio a pesquisas desfavoráveis. Após as revelações do caso Vorcaro, Lula começou a aparecer numericamente à frente de Flávio em levantamentos recentes. A Reuters registrou que esse episódio impactou os mercados e passou a ser considerado um fator capaz de alterar o cenário eleitoral.
O bolsonarismo sempre valorizou símbolos internacionais, especialmente a proximidade com Trump. Durante as eleições de 2018 e 2022, essa conexão com a direita americana foi fundamental para consolidar identidade política entre seus apoiadores. No entanto, em 2026, Flávio tenta utilizar esse mesmo discurso sob circunstâncias muito mais frágeis: não para expandir sua influência, mas para se proteger.
A falta de agenda com Trump evidencia que a estratégia política não saiu conforme previsto. O senador permanece sem a imagem desejada ao lado do ex-presidente americano e sem respaldo público quanto ao seu prestígio internacional — além disso, ainda enfrenta questões complicadas relacionadas ao caso Vorcaro.
Flávio tem direito à defesa e à presunção de inocência; no entanto, no âmbito político sua pré-campanha acumula versões contraditórias e agendas incertas junto a tentativas frustradas de readequação que não conseguem abafar seu principal problema.
O caso Dark Horse continua sendo central na crise enfrentada por ele. As ligações com Vorcaro, os valores milionários envolvidos e agora essa viagem frustrada à Washington sem reunião prevista formam um quadro complexo: uma candidatura lutando para escapar dos efeitos negativos de um escândalo ainda determinante na disputa eleitoral.
A visita aos Estados Unidos deveria servir como demonstração de força; até agora ela revelou apenas improvisação. Para um pré-candidato buscando herdar o bolsonarismo em meio ao maior desgaste de sua trajetória política até aqui, isso pode ter consequências severas.
