Nesta terça-feira (7), uma enorme quantidade de indígenas de diversas partes do Brasil se reuniu em uma marcha pela Esplanada dos Ministérios, em Brasília. O evento faz parte da 22ª edição do Acampamento Terra Livre (ATL). Por volta das 9h30, representantes de etnias como tikuna, kokama, makuxí, tupinambá, pataxó, krahô, apinajé, guajajara, krikati e gavião deixaram o palco principal do ATL, localizado no Eixo Cultural Ibero-Americano.
Com o sol escaldante, os manifestantes percorreram os seis quilômetros até o Congresso Nacional, que é o principal alvo das críticas do movimento. Os participantes acusam a maioria dos senadores e deputados federais de promoverem e aprovarem legislações que ferem os direitos constitucionais dos povos indígenas, ameaçando seus territórios e modos de vida.
Os indígenas também denunciam que parlamentares e governos federais e estaduais têm se rendido à pressão exercida pelo agronegócio e pela mineração, permitindo a exploração econômica de suas terras tradicionais por não indígenas.
Utilizando pinturas corporais e vestimentas típicas de suas culturas, os manifestantes carregavam seis faixas com mensagens como “Congresso Inimigo Dos Povos”, “Nosso Território Não Está À Venda”, “O Futuro É Indígena”, “Marco Temporal É Golpe”, “Demarcação É Futuro” e “Marco Temporal Não”.
Para atender a um acordo com as autoridades de segurança do Distrito Federal, os indígenas deixaram suas armas – arcos, flechas, bordunas, lanças e zarabatanas – no acampamento. Eles ocuparam três das seis faixas disponíveis e uma parte do gramado na Avenida Eixo Monumental, que atravessa o Plano Piloto na direção leste-oeste.
“Estamos realizando uma marcha pacífica em direção a um Congresso que não é pacífico; é hostil aos povos indígenas”, declarou um membro da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), organização responsável pelo ATL.
“Viemos colorir Brasília com o vermelho do urucum e da resistência do jenipapo, trazendo força e renovação indígena”, acrescentou o mesmo representante antes do início da marcha.
Uma questão frequentemente criticada pelos indígenas é o Marco Temporal. Esta tese jurídica estabelece que os direitos territoriais dos povos indígenas são limitados às áreas que ocupavam em outubro de 1988, data da promulgação da Constituição Federal.
No ano de 2023, o Supremo Tribunal Federal (STF) considerou essa tese inconstitucional. Contudo, em 2025, o Senado aprovou uma proposta de emenda à Constituição (PEC) que impõe esse limite temporal às reivindicações por demarcações. Como os senadores alteraram o texto previamente aprovado pela Câmara dos Deputados em 2023, a PEC foi devolvida para nova análise dos deputados federais.
Os manifestantes também pedem ao governo federal que reconheça mais terras para os povos indígenas. As lideranças afirmam que entre 2019 e 2022 não houve homologação de novas áreas tradicionais; no entanto, entre janeiro de 2023 e novembro de 2025 foram validadas 20 novas terras.
A Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) informa que essas novas áreas totalizam aproximadamente 2,5 milhões de hectares protegidos em 11 unidades federativas.
“Continuamos lutando pela garantia territorial”, afirmou Dinamam Tuxá, coordenador executivo da Apib, à Agência Brasil no último domingo (5).
Dinamam ressaltou que existe um grande passivo em demarcações e um cenário marcado por violência nas terras indígenas que nenhum governo conseguiu resolver. “Isso tem sido um fator motivador para nós estarmos aqui em Brasília apresentando nossas demandas”, completou ele.
Ele ainda mencionou que atualmente há cerca de 110 áreas sendo analisadas como terras da União destinadas ao usufruto indígena.
A ex-presidente da Funai e primeira mulher indígena eleita deputada federal Joenia Wapichana foi convidada a discursar do caminhão de som. Ela enfatizou a importância dos indígenas “aldearem a política”, conforme as lideranças propõem.
“Estamos aqui para afirmar que os povos indígenas têm capacidade para ocupar qualquer espaço: sejam parlamentares ou representantes políticos. Essas oportunidades estão ao nosso alcance”, declarou Joenia.
Ela destacou ainda a necessidade de aumentar o orçamento destinado aos órgãos públicos responsáveis pela proteção indígena, como a Funai e a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), vinculada ao Ministério da Saúde.
