A Huawei anunciou que o lançamento do Ascend 960DT, seu novo processador voltado para inteligência artificial, foi adiantado para o primeiro trimestre de 2027. Essa mudança representa uma antecipação de aproximadamente seis meses em relação ao cronograma anteriormente previsto, que era para o terceiro trimestre do mesmo ano. A revelação ocorreu durante a conferência Huawei Connect, realizada em Xangai, no dia 17 de setembro de 2026, e tem como foco direto a rival Nvidia no setor responsável pelo treinamento e pela inferência de modelos de IA. Essa decisão ilustra como as restrições impostas pelos Estados Unidos à China têm gerado efeitos políticos significativos. Enquanto Washington tenta limitar o acesso da China a semicondutores de última geração, essa pressão acabou impulsionando a autossuficiência tecnológica como uma prioridade industrial, com a Huawei assumindo um papel central nessa resposta.
David Wang, presidente rotativo da empresa, revelou que o Ascend 960DT estará operacional no início de 2027. Além disso, a Huawei planeja lançar o Ascend 960PR no terceiro trimestre do mesmo ano e desenvolver novas versões da linha Ascend até 2028 e 2029.
Bloqueios impulsionam indústria
As sanções dos EUA têm restringido a comercialização dos chips mais avançados da Nvidia e de equipamentos sofisticados para a fabricação de semicondutores destinados a empresas chinesas. Desde maio de 2019, a Huawei enfrenta controles comerciais rigorosos impostos pelos Estados Unidos.
A estratégia da Huawei vai além da simples substituição de um chip estrangeiro por um nacional. A companhia almeja interligar milhares e posteriormente centenas de milhares de processadores para que funcionem em conjunto como um único sistema computacional.
Essa arquitetura inovadora é chamada pela empresa de Peerium. O componente essencial dessa estrutura é o UnifiedBus, uma tecnologia projetada para conectar processadores, armazenamento, memória e redes dentro de sistemas amplos dedicados à inteligência artificial.
Segundo informações da Huawei, essa arquitetura possibilita escalabilidade para até um milhão de processadores. Um Atlas 950 SuperCluster composto por 256 mil placas já está em processo de implementação, enquanto o sistema Atlas 960, que utiliza óptica próxima ao encapsulamento, está atualmente em fase de testes.
Foco na infraestrutura da IA
O Ascend 960DT foi desenvolvido especialmente para o treinamento de modelos. Esta fase exige intensos recursos computacionais para criar sistemas capazes de gerar textos, imagens, códigos e análises.
A etapa seguinte é a inferência, onde o modelo já treinado interage com os usuários ao recomendar conteúdos, resumir documentos ou realizar tarefas em aplicativos e serviços digitais.
A competição com a Nvidia se desenrola nessas duas áreas. A empresa americana detém uma posição dominante no mercado global devido à combinação entre seus chips poderosos, redes interconectadas entre os processadores e um ecossistema robusto de software.
A Huawei visa exatamente os pontos onde as sanções deixaram a China mais vulnerável. Enquanto cada chip individual ainda enfrenta limitações específicas, os benefícios podem surgir através da escala e interconexão que permitam maior processamento realizado internamente no país.
Demanda supera capacidade produtiva
Eric Xu, também presidente rotativo da Huawei, destacou que a empresa ainda não consegue produzir equipamentos suficientes para atender à crescente demanda por inteligência artificial na China. Por esse motivo, as vendas externas estão sendo limitadas.
Ele mencionou que os testes realizados com o Ascend 950DT apresentaram resultados promissores e que negociações estão em andamento com desenvolvedores chineses interessados em utilizar esse chip para treinar seus sistemas no próximo ano.
No entanto, essa situação evidencia um desafio real enfrentado pela iniciativa chinesa: embora haja progresso na área tecnológica, é crucial aumentar a capacidade produtiva e garantir componentes essenciais para transformar planos em entregas efetivas.
XU também reconheceu a falta de dados confiáveis sobre a participação da Nvidia no mercado chinês de chips voltados para IA. Apesar disso, acredita-se que a linha Ascend possa já ter conquistado uma fatia maior desse mercado; contudo, números concretos não foram apresentados pela Huawei para corroborar essa afirmação.
Nvidia se destaca na parte do software
Um dos maiores desafios enfrentados pela Huawei não reside apenas nos semicondutores. A Nvidia mantém uma vantagem consolidada no software utilizado por desenvolvedores devido à sua plataforma CUDA, que se tornou referência em muitos projetos relacionados à inteligência artificial.
Esse ecossistema facilita a transição para empresas que já utilizam infraestrutura da Nvidia para treinar e implementar modelos. Para contrabalançar essa situação, a Huawei está ampliando seu CANN (Computing Architecture for Neural Networks), base tecnológica da linha Ascend.
A empresa afirma ter mais de 5.200 desenvolvedores ativos mensalmente dentro do ecossistema Ascend e disponibiliza mais de 40 modelos pré-treinados nativamente em sua pilha de software. Além disso, ela assegura suporte a projetos como PyTorch, Triton e vLLM.
Dessa forma, fica claro que essa disputa não será definida apenas por especificações técnicas; envolve também fabricação, memória, interconexões entre componentes hardware, programadores qualificados e datacenters – assim como decisões governamentais e empresariais sobre onde executar seus modelos de IA.
Anúncio ocorre antes do encontro Trump-Xi
O comunicado foi feito uma semana antes da reunião agendada entre Donald Trump e Xi Jinping no dia 24 de setembro em Washington. A inteligência artificial deve ser tema discutido entre EUA e China nesse contexto em que Washington busca manter sua posição líder enquanto Pequim acelera esforços para substituir tecnologias estrangeiras.
Trump tem se oposto aos apelos por uma desaceleração na corrida pela IA sob alegações relacionadas à segurança nacional. Em resposta às tensões atuais em Xangai, Xu argumentou que os desenvolvedores chineses ainda precisam evoluir mais antes de compreender plenamente os riscos associados aos modelos mais avançados.
A Huawei transformou essa análise em estratégias envolvendo produtos específicos e cronogramas estruturais. Embora o Ascend 960DT ainda precise ser integrado aos centros de dados relevantes, sua antecipação para início de 2027 demonstra que as restrições americanas não impedem a resposta chinesa ao desafio tecnológico atual.

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