O projeto do data center avaliado em US$ 15 bilhões, iniciado pelo Google em Visakhapatnam, situado no estado indiano de Andhra Pradesh, transformou a promessa de inteligência artificial em uma verdadeira disputa por recursos como terra, água, energia e impostos. Apresentado pela gigante da tecnologia e seus parceiros como uma infraestrutura destinada a impulsionar a economia digital da Índia, o empreendimento enfrenta críticas de comunidades locais e defensores da inclusão digital por concentrar recursos públicos e naturais em uma instalação altamente automatizada, com retornos sociais ainda incertos. Em entrevista publicada em 27 de agosto, Osama Manzar, fundador e diretor da Digital Empowerment Foundation, destacou essa questão. Para ele, o governo indiano considera os data centers como “atividade de desenvolvimento” sem garantir que a população impactada participe das decisões ou usufrua dos benefícios econômicos trazidos pela nova infraestrutura. Essa crítica atinge o cerne político da corrida pela inteligência artificial. O Google não está apenas implementando servidores; em colaboração com a AdaniConneX e a Airtel, a empresa busca transformar Visakhapatnam em um centro de computação em larga escala, com cabos submarinos, energia limpa e sistemas avançados de transmissão e armazenamento. A companhia afirma que essa estrutura atenderá startups, grandes corporações, pesquisadores e criadores.
Entretanto, a reflexão proposta por Manzar vai além disso. Ao oferecer terras a preços acessíveis e isenções fiscais para uma iniciativa privada que quase não gera emprego local após sua construção, o conceito de desenvolvimento acaba encobrindo uma transferência de recursos. A tecnologia deixa de ser vista como um agente emancipador e se transforma em uma indústria extrativa que depende de dados, água e eletricidade.
A promessa de emprego esbarra na automação
Manzar enfatiza que as comunidades devem ser consultadas antes que empresas busquem explorar suas terras e espaços. Ele questiona a frequente afirmação sobre geração de empregos, pois os data centers operam através de sistemas automatizados e as próprias empresas não garantem que moradores locais terão acesso a vagas nesses locais.
Essa é uma diferença crucial entre uma fábrica tradicional e um campus de computação. Enquanto uma fábrica pode ocupar um espaço físico e ao mesmo tempo empregar significantemente trabalhadores da região, um data center consome enormes quantidades de energia, necessitando de refrigeração constante, segurança especializada e manutenção contínua; no dia a dia seu funcionamento é projetado para exigir poucos funcionários.
O Google também tentou abordar questões sociais relacionadas ao projeto. Em abril de 2026, ao anunciar o início das obras do hub em Visakhapatnam, a empresa afirmou ter realizado uma avaliação do impacto na comunidade e prometeu implementar programas voltados para gestão hídrica, apoio a mais de mil pescadores, concessão de bolsas para iniciativas locais e capacitação em inteligência artificial para beneficiar mais de 10 mil mulheres em situação vulnerável através do microempreendedorismo. Embora essas ações possam aliviar pressões políticas, não substituem uma consulta pública abrangente nem esclarecem quantos empregos permanentes estarão disponíveis para as comunidades afetadas. É importante registrar que o Google assegura que o projeto trará impactos positivos duradouros à comunidade local enquanto prioriza energia limpa e soluções adequadas para transmissão e armazenamento. O governo indiano também menciona que os data centers utilizam tecnologias eficientes para resfriamento e que as necessidades hídricas variam conforme o tipo de sistema utilizado. Contudo, isso não resolve a questão central levantada por Manzar: antes de discutir eficiência energética é necessário debater se realmente deveria haver um data center naquele local sob aquelas circunstâncias.
Incentivo fiscal vira disputa por recurso público
A Índia está investindo fortemente na atração de infraestrutura relacionada à inteligência artificial. Em fevereiro de 2026, o Orçamento da União apresentou uma proposta para isenção fiscal até 2047 voltada para empresas estrangeiras que oferecem serviços globais na nuvem utilizando data centers no país. Essa estratégia foi apresentada como um meio para posicionar a Índia como um centro global na área de computação e inteligência artificial. O Ministério da Eletrônica e Tecnologia da Informação informou em agosto que a capacidade instalada dos data centers no país aumentou de 375 MW em 2020 para aproximadamente 1.575 MW em 2026. Além disso, destacou-se que esses empreendimentos são majoritariamente desenvolvidos por empresas privadas sem subsídios governamentais diretos para sua implementação. No entanto, essa declaração não encerra o debate; embora isenções fiscais ao longo de duas décadas não sejam equivalentes a um investimento direto na construção das unidades, elas têm implicações financeiras significativas para o setor público. Ademais, estados competem por projetos desse tipo oferecendo terras com tarifas reduzidas e facilitação regulatória.
No contexto específico de Andhra Pradesh, o Human Rights Forum apontou que o pacote de incentivos relacionado ao projeto do Google inclui isenções fiscais significativas além da alocação territorial com tarifas menores e reembolsos associados à água e energia totalizando cerca de 22.002 crore rúpias (aproximadamente US$ 2,4 bilhões) ao longo das duas décadas seguintes. A organização exige total transparência sobre memorandos relacionados ao projeto assim como compromissos relativos à água e à energia envolvidos no processo. Este cenário tem implicações diretas também para leitores brasileiros: quando um governo trata infraestrutura privada como interesse público, parte do risco financeiro recai sobre os contribuintes enquanto as comunidades perdem território e seus recursos naturais se tornam parte dos ativos gerenciais das grandes corporações globais. Caso haja escassez hídrica ou pressão sobre redes elétricas locais isso poderá refletir nas tarifas cobradas aos consumidores finais bem como na concorrência por abastecimento essencial.
Água e energia expõem a face física da IA
A inteligência artificial frequentemente é promovida como um serviço invisível alojado numa nuvem sem localização definida; contudo Visakhapatnam exemplifica exatamente o contrário: essa nuvem possui bairros específicos com reservatórios próprios além das linhas necessárias para transmissão elétrica.
Um estudo realizado pela Universidade das Nações Unidas estimou que os data centers globais podem chegar a consumir até 945 terawatts-hora anualmente até 2030. A demanda hídrica associada a esse volume energético corresponderia às necessidades básicas anuais cerca de 1 bilhão 300 milhões pessoas na África Subsaariana segundo pesquisa similar. Esses dados globais não provam diretamente qual será o consumo específico do campus do Google em Visakhapatnam; no entanto eles ilustram claramente a magnitude da infraestrutura que governos estão apressando sua instalação atualmente. Esse cenário também ajuda explicar porque comunidades nos países como Índia, Malásia ou Chile começaram a contestar data centers não apenas sob um aspecto tecnológico mas também como um conflito relacionado ao meio ambiente e à justiça distributiva.
Manzar rejeita qualquer ideia que sugira que comunidades carentes devam suportar apenas os custos físicos associados à infraestrutura criada prioritariamente para beneficiar elites econômicas externas. Sua proposta consiste na descentralização: ele advoga por data centers localizados perto das necessidades específicas agrícolas ou administrativas das próprias comunidades.
A sugestão avançada por ele pode não resolver sozinha toda demanda crescente por processamento computacional; entretanto ela reinveste numa questão muitas vezes evitada pela indústria: quem decide onde será construída cada unidade dedicada à IA? Quem arcará com os custos relacionados à água ou energia? E quem terá controle sobre os valores gerados?
O verniz de progresso não basta
Nessa narrativa concreta sobre Visakhapatnam o Google assume papel central como vilão devido à sua operação expressiva nessa história além do valor estratégico associado ao hub local; já o governo indiano junto ao estado local são agentes políticos responsáveis pela legislação necessária bem como pelas licenças concedidas junto aos incentivos fiscais oferecidos aos empreendimentos desse tipo. As comunidades locais tendem aparecer tardiamente nesse quadro quando as decisões já foram tomadas definindo os terrenos envolvidos nas obras.
Manzar se posiciona como contraponto porque provém do setor ligado à inclusão digital ao invés do atraso tecnológico: ele foi responsável por construir uma agenda voltada ao acesso digital para populações menos favorecidas quando grande parte da Índia ainda carecia conectividade adequada. Sua crítica à inteligência artificial não reflete aversão tecnológica mas sim uma recusa contra aceitar que progresso tecnológico avance às custas das vidas daqueles considerados meramente obstáculos administrativos.
Por outro lado é preciso reconhecer também os argumentos favoráveis ao projeto; afinal a Índia busca reduzir sua dependência externa atraindo investimentos enquanto procura abrigar dados locais além disputando vital infraestrutura relacionada à IA globalmente falando; ficar fora deste contexto pode resultar numa dependência ainda maior perante potências como Estados Unidos ou China.
No entanto vale ressaltar que soberania tecnológica não surge automaticamente com apenas um servidor instalado dentro dos limites nacionais: se as terras forem cedidas pelo Estado enquanto impostos são dispensados pelo público local somados às águas retiradas dessas regiões sob controle corporativo estrangeiro então essa soberania torna-se apenas mais um termo vazio sem significado prático real—na prática estabelece-se apenas uma dependência disfarçada com CEP local.
A discussão acerca do caso envolvendo Visakhapatnam permanece aberta dado que documentos relevantes compromissos ambientais assim como garantias visando consultas públicas ainda estão no cerne dessa contestação social; enquanto essas respostas permanecerem obscuras ou sem obrigatoriedade legal efetiva o data center do Google continuará sendo visto como símbolo representativo dessa inteligência artificial promissora mas cuja implementação requer terra água recursos públicos sem proporcionar participação efetiva daqueles diretamente impactados neste processo.

Average Rating