Um coletivo vinculado ao super PAC Leading the Future está elaborando uma estratégia publicitária que envolve milhões de dólares, visando promover data centers de inteligência artificial entre os eleitores de Kansas, Ohio e Wisconsin. Nestes estados, a discussão sobre tarifas de energia, abastecimento de água e gestão local se tornou um tema central nas campanhas eleitorais. A Build American AI, uma organização 501(c)(4) ligada à rede política sustentada por figuras como Marc Andreessen, Ben Horowitz e Greg Brockman, cofundador da OpenAI, pretende mudar o foco das discussões regulatórias para as residências que podem abrigar esses parques de servidores. A situação é mais direta e crua do que a terminologia técnica sugere. O setor de inteligência artificial requer eletricidade, terrenos, água, incentivos fiscais e infraestrutura de transmissão. Enquanto cidadãos questionam quem arca com esses custos, os magnatas do Vale do Silício optaram por investir em publicidade.
A contradição de Brockman
Greg Brockman se destaca como a figura mais controversa dessa iniciativa. Em junho, a OpenAI divulgou um comunicado para dissociar-se do Leading the Future, afirmando que não supervisiona o grupo nem tem conhecimento sobre suas atividades e enfatizou que nenhuma entidade política externa representa a empresa. No mesmo documento, a OpenAI ressaltou a importância da transparência das organizações envolvidas em IA quanto às suas posições e à representação dos interesses que defendem, além de criticar táticas como astroturfing, que designa campanhas financiadas que aparentam ser movimentos espontâneos. A empresa acertou ao identificar o problema. Embora Brockman e sua esposa Anna tenham oferecido apoio pessoal ao LTF, isso não ocorreu em nome da OpenAI. Essa distinção formal é relevante. Contudo, para o eleitor exposto aos anúncios sobre data centers na televisão ou em dispositivos móveis, essa separação societária pouco significa. O capital provém do núcleo social e financeiro que se beneficia da expansão da IA.
A Build American AI anunciou que sua campanha se iniciará nos estados de Kansas, Ohio e Wisconsin. As ações incluem publicidade paga, mobilização comunitária, pesquisa de opinião pública e educação informativa. Além disso, o grupo revelou a criação de um novo super PAC chamado Building the Future para apoiar candidatos alinhados com suas propostas e opor-se àqueles que não compartilham suas ideias. Essa é a essência política da campanha: não se trata apenas de defender uma tecnologia; ela visa estabelecer uma máquina eleitoral capaz de transformar a aceitação dos data centers em um fator decisório nas eleições. Os eleitores locais tornam-se alvos numa disputa originada em fundos de capital de risco e que afeta desde o zoneamento até tarifas energéticas e orçamentos municipais.
O que está em jogo no bairro
Data centers não são meros aplicativos na nuvem; tratam-se de instalações físicas repletas de servidores que demandam eletricidade constante, sistemas para resfriamento e impactam as redes locais – muitas vezes acompanhados por incentivos fiscais. Em Ohio, a democrata Amy Acton, candidata ao governo estadual, propôs uma moratória condicional para novos data centers afirmando que tanto famílias quanto empresas merecem proteção contra o aumento dos custos. Seu vice David Pepper indicou exigências como trabalho sindicalizado, padrões ambientais rigorosos, acordos comunitários transparentes e pagamento integral por parte das empresas pelos custos da infraestrutura necessária. Acton representa claramente um ponto de vista oposto nesta discussão; ela não se opõe totalmente à instalação desses centros mas busca inverter a lógica convencional do debate. Antes de conceder terras ou isenções fiscais às empresas do setor privado, o Estado deve exigir condições comprováveis.
O caso em Ohio ilustra por que essa campanha publicitária surge agora: o estado abriga mais de 200 data centers conforme informações do Ohio Consumers’ Counsel citadas por veículos da mídia. A controvérsia já permeia a disputa pelo Senado local. Um memorando do comitê republicano destacou os riscos relacionados ao tema para Jon Husted diante do democrata Sherrod Brown nas próximas eleições. A análise republicana reconhece que a resistência aos data centers evoluiu além do ativismo ambientalista e agora representa um desafio eleitoral significativo. Percebendo essa ameaça potencial à sua imagem pública, a indústria começou a veicular mensagens focadas na liderança dos EUA em tecnologia IA e na proteção das famílias locais. A linguagem utilizada é acessível; no entanto, as implicações são complexas: se novas usinas ou reforços na rede elétrica forem necessários devido às demandas dos data centers, quem arcará com esses custos? O verdadeiro embate gira em torno da responsabilidade financeira: será que caberá à Big Tech sustentar esses custos ou recaíra sobre os contribuintes ou consumidores?
Dinheiro privado contra escolha pública
O Leading the Future foi criado com o objetivo de influenciar as eleições intermediárias programadas para 2026 além da regulação federal relacionada à IA. Em janeiro deste ano, já havia levantado mais de US$ 125 milhões com contribuições notáveis dos nomes citados anteriormente incluindo Brockman e empresas como Andreessen Horowitz e 8VC. Esse financiamento também servirá para sustentar a Build American AI como um braço dedicado à promoção da agenda legislativa dessa indústria emergente. A Andreessen Horowitz figura entre os principais patrocinadores dessa movimentação financeira massiva; somente neste ciclo eleitoral foram cerca de US$ 115 milhões direcionados às contribuições federais conforme dados analisados pelo New York Times e replicados por veículos especializados em financiamento político. As pautas discutidas incluem IA juntamente com criptomoedas numa tentativa abrangente de moldar normas públicas antes que sejam estabelecidos controles mais rigorosos pelos governos locais.
A magnitude desse investimento altera radicalmente o cenário democrático local: audiências municipais sobre questões relacionadas à água ou isenções tributárias agora competem com campanhas publicitárias profissionalmente financiadas por investidores externos sem vínculo direto com as comunidades afetadas. O discurso popular enfraquece ainda mais considerando que a Build American AI opera sob o formato 501(c)(4), o qual não exige divulgação pública sobre seus financiadores. Um ponto importante é que até agora não foram apresentadas evidências concretas sugerindo má-fé ou ocultação na autoria das campanhas promovidas pela Build American AI; contudo existe uma contradição política clara: enquanto a OpenAI critica práticas enganosas como astroturfing pedindo transparência total nas operações políticas relacionadas à tecnologia IA., seu cofundador financia pessoalmente uma rede dedicada justamente a persuadir comunidades sobre essa infraestrutura essencial.
A conta que a propaganda tenta esconder
No estado Wisconsin, um estudo realizado pelo Wisconsin Policy Forum revelou que grandes data centers podem demandar investimentos significativos em geração energética e infraestrutura hídrica embora também tenham potencial para aumentar a arrecadação tributária local através ofícios específicos junto às comunidades afetadas. O relatório destacou ainda a ausência de informações adequadas sobre o consumo energético dessas instalações além dos responsáveis pelos custos associados às novas obras necessárias para suportá-las – este é o fulcro do debate atual: não se trata apenas da aceitação genérica pela inovação tecnológica mas sim quem decide onde essa infraestrutura será erguida; quem se beneficiará dela; quem pagará pela energia consumida; e quem enfrentará os riscos quando as promessas de empregos permanentes não estiverem alinhadas ao volume investido na construção dessas instalações.
A Build American AI acredita firmemente que injetar milhões nesse conflito pode transformá-lo em uma narrativa positiva sobre orgulho tecnológico local; enquanto isso Amy Acton junto aos moradores organizados representam uma resistência concreta frente essa tentativa simplificada de embalagem comercializada pela indústria tecnológica emergente até novembro quando Kansas, Ohio e Wisconsin serão testados para avaliar se as estratégias publicitárias conseguirão converter interesses industriais em aprovação popular.

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