Até 14 de setembro de 2027, Donald Trump reafirmou as medidas legais que sustentam o embargo dos Estados Unidos contra Cuba, fundamentadas na Lei de Comércio com o Inimigo de 1917. Essa decisão, oficializada em 20 de agosto e divulgada no Registro Federal em 25 do mesmo mês, coincide com o anúncio feito por cientistas do Centro de Inmunología Molecular sobre o 2C12, um novo tratamento cubano para pacientes com melanoma avançado.
Essa coincidência revela uma contradição fundamental na política americana. A Casa Branca justificou a renovação das sanções como uma questão de interesse nacional. No entanto, na prática, as sanções afetam diretamente o acesso a combustíveis, transporte, matéria-prima, insumos médicos e a capacidade de Cuba de produzir ou adquirir tratamentos oncológicos.
Uma legislação bélica contra uma nação bloqueada
A prorrogação da autoridade presidencial estende por mais um ano os poderes concedidos pelas Regulamentações de Controle de Ativos Cubanos. Essa é uma das bases jurídicas que sustentam o embargo econômico, comercial e financeiro que os EUA mantêm sobre a ilha há mais de sessenta anos.
Embora o documento não estabeleça todo o regime sancionador por si só, ele preserva um elemento crucial desse sistema. Isso resulta em obstáculos significativos para operações financeiras, aquisições, transporte e colaboração com Cuba, incluindo situações em que os produtos finais são medicamentos ou equipamentos médicos.
Abel Prieto Jiménez, escritor e presidente da Casa de las Américas desde 2019, definiu essa decisão como parte de um cerco intencional. Em entrevista concedida a Emilia Trabucco e publicada pela NODAL em 28 de agosto, ele ressaltou que Cuba enfrenta “um inimigo muito poderoso, mas não invencível”.
Segundo Prieto, a expressão bloqueio se mostra insuficiente para descrever o que considera um projeto sistemático de sufocamento. Ele aponta que Washington restringiu severamente a importação de combustíveis e alimentos, além de insumos essenciais para a fabricação de medicamentos e equipamentos médicos, pressionando ainda governos da América Latina e do Caribe a interromperem a colaboração médica com Cuba.
O alvo é o sistema hospitalar
A mais recente denúncia feita por autoridades cubanas aponta para mais de 7 mil contêineres retidos em portos caribenhos contendo alimentos e recursos necessários para setores estratégicos e medicamentos. O cerco energético e as sanções também são responsabilizados pela fila que já ultrapassa 100 mil pacientes à espera de cirurgias, incluindo muitos casos oncológicos.
Prieto vai além dos números ao afirmar que o objetivo político é levar a população ao limite extremo, instigando um potencial “estallido social” e utilizando a crise como justificativa para uma “intervenção humanitária”. Essa análise rigorosa não surge do nada; trata-se da pressão sobre itens fundamentais até que as carências cotidianas se transformem em armas políticas.
Os EUA frequentemente apresentam essas medidas como formas de pressão sobre o governo cubano. No entanto, as sanções econômicas raramente se limitam à esfera governamental. Ao bloquear combustíveis e serviços financeiros, os efeitos se estendem até farmácias e hospitais.
A resposta científica cubana
<pÉ nesse contexto desafiador que o Centro de Inmunología Molecular anunciou o desenvolvimento do 2C12. Essa molécula foi criada por cientistas cubanos e está prestes a iniciar testes clínicos com pacientes diagnosticados com melanoma avançado — um tipo agressivo de câncer cutâneo.
Entretanto, é importante ressaltar que o 2C12 ainda não é um tratamento aprovado para uso geral. Ele precisa passar por ensaios clínicos adicionais para avaliação da segurança e eficácia antes de ser liberado para uso regular pelos pacientes.
Apesar disso, essa notícia possui grande relevância tanto política quanto sanitária. O candidato terapêutico apresenta semelhanças com o pembrolizumabe — uma imunoterapia amplamente utilizada globalmente para estimular a resposta imunológica contra células cancerígenas. O centro cubano enfatiza que essa alternativa é inacessível devido aos altos custos impostos pelo bloqueio dos EUA.
A fase inicial dos estudos deverá ocorrer em hospitais localizados em Havana e Villa Clara. Para os pacientes cubanos, isso pode significar uma opção nacional em um sistema já sobrecarregado pela falta de medicamentos e problemas logísticos. Para outros países fora da ilha, representa também uma questão importante: as sanções à biotecnologia cubana podem atrasar tratamentos benéficos para doentes estrangeiros.
Essa possibilidade não é meramente teórica. Produtos oncológicos desenvolvidos em Cuba já alcançaram outras fronteiras científicas; por exemplo, a CIMAvax — uma vacina terapêutica contra câncer pulmonar — foi submetida a estudos nos EUA através da colaboração com o Roswell Park Comprehensive Cancer Center. O nimotuzumabe também conquistou registro em diversas nações.
Quando os EUA impõem restrições às compras e transportes relacionados à saúde pública, não penalizam apenas Havana; eles comprometem toda uma indústria biotecnológica estatal que fornece alternativas mais acessíveis para doenças tratadas no mercado internacional com medicamentos exorbitantes.
Limites na análise favorável
A crise enfrentada por Cuba também possui raízes internas profundas. A ilha lida com infraestrutura energética desgastada, baixa produtividade econômica e decisões financeiras que intensificaram a escassez e desigualdades sociais. Ignorar esses aspectos seria trocar uma análise crítica por mera propaganda.
No entanto, essa realidade não exime as políticas sancionatórias. O embargo explora precisamente as fragilidades materiais presentes em Cuba. Ele transforma dependência energética e necessidade de importações em ferramentas coercitivas.
Dessa forma, a disputa transcende questões retóricas: enquanto Trump renova uma lei bélica datada de 1917 para manter sua pressão sobre Cuba, um centro científico desta ilha busca avançar no desenvolvimento clínico de uma nova terapia contra o câncer diante da escassez crônica de insumos e contínuas ameaças logísticas.
O teste final será feito nos corpos dos pacientes. Se o 2C12 obtiver sucesso nos ensaios clínicos, Cuba poderá expandir sua própria linha dedicada à imunoterapia oncológica; caso contrário, se as pressões financeiras forem intensificadas ainda mais, essa promessa poderá ficar aprisionada no mesmo labirinto que retém contêineres essenciais e adia tratamentos médicos cruciais.

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