Carro elétrico de cinco lugares, criado por ex-designer da Apple, é lançado após cinco anos de desenvolvimento e gera reações polarizadas nas redes sociais
Por mais de setenta anos, a Ferrari manteve sua tradição. Enquanto diversas montadoras globalmente se apressavam para eletrificar seus modelos, a icônica fabricante italiana de Maranello preferia o som dos motores a combustão e a essência da gasolina. Contudo, essa era chegou ao fim. Na última segunda-feira (25/05), a Ferrari revelou o Luce — seu primeiro automóvel totalmente elétrico. Com um preço que chega a US$ 640 mil, ou cerca de R$ 3,2 milhões, o modelo representa uma série de decisões que desafiam a imagem histórica da marca. O nome do veículo, que em italiano significa “luz”, simboliza uma nova direção para a empresa.
O CEO Benedetto Vigna apresentou o novo veículo em Roma, com a seriedade de quem é consciente da importância desse lançamento. “Demoramos cinco anos para criar o Luce”, afirmou Vigna, ressaltando que essa decisão foi cuidadosamente considerada. O projeto teve início em um período em que a Ferrari ainda rejeitava publicamente qualquer interesse em veículos completamente elétricos.
O Luce não apenas é elétrico; ele também altera fundamentalmente o que os aficionados pela marca tradicionalmente associam à Ferrari. Pela primeira vez na história da montadora, um carro com capacidade para cinco pessoas foi lançado. Além disso, o design foi desenvolvido em colaboração com a agência LoveFrom, liderada por Jony Ive, o renomado designer britânico responsável por moldar a identidade visual da Apple durante décadas.
O resultado é um automóvel que parece ter surgido de uma estética completamente diferente. Flavio Manzoni, diretor de design da Ferrari, descreveu em entrevista à criadora de conteúdo Cleo Abram que o conceito é “polarizador” — e isso fica evidente nas reações ao lançamento.
Sob o capô — em sentido figurado —, o Luce é equipado com um motor elétrico projetado pela própria Ferrari em cada uma das quatro rodas. Essa configuração permite que o veículo alcance 96 km/h partindo do zero em aproximadamente 2,5 segundos. A montadora enfatizou que todos os componentes são fabricados internamente, garantindo assim que ela possa realizar manutenções no futuro e preservar o valor do carro no mercado.
Reações variadas: de elogios a escândalos
A apresentação do primeiro carro elétrico da Ferrari agita as redes sociais e reabre discussões sobre tradição versus inovação no setor de luxo / Divulgação
Após o anúncio do Luce, as redes sociais foram inundadas com comentários variados. No X (anteriormente conhecido como Twitter), as opiniões oscilaram entre entusiasmo genuíno e indignação expressa em letras maiúsculas.
“A Ferrari acaba de destruir sua marca, assim como fez a Jaguar. Isso está fadado ao ferro-velho”, comentou um usuário. Outro se indagou: “O que está acontecendo com as montadoras europeias de luxo? Primeiro foi a Jaguar e agora é a Ferrari.”
A comparação com a Jaguar não foi à toa; o carro-conceito elétrico dessa marca britânica também enfrentou duras críticas por abandonar seu estilo clássico. Para muitos críticos, parece que a Ferrari está seguindo um caminho semelhante.
No entanto, há também quem defenda o novo modelo com fervor igual. “Uma verdadeira obra-prima do design! A Ferrari acaba de apresentar um conceito incrível chamado Luce, marcando um momento decisivo”, destacou outro internauta. Manzoni respondeu às críticas com calma: ele acredita que resistência é parte essencial do processo inovador e espera que as pessoas venham a valorizar o novo carro nos próximos meses.
A decisão da Ferrari ocorre em um momento oposto ao movimento dos seus concorrentes diretos. A Lamborghini cancelou seus planos para veículos totalmente elétricos e decidiu focar em modelos híbridos devido à baixa demanda nesse segmento premium. A Porsche também reduziu investimentos na área elétrica diante das vendas fracas na China e das tarifas elevadas nos Estados Unidos.
A situação geral da indústria automobilística não ajuda. Montadoras como Ford e Volkswagen reforçaram suas apostas nos veículos movidos a gasolina no mercado norte-americano após cortes nos incentivos fiscais para carros elétricos durante o governo Trump. A concorrência chinesa também pressiona fortemente as fabricantes ocidentais ao oferecer carros elétricos produzidos rapidamente e por custos significativamente menores.
<pNesse contexto desafiador, a Ferrari opta por uma abordagem ousada porém cautelosa: garantiu que continuará fabricando automóveis movidos a gasolina e híbridos ao lado do Luce. Trata-se mais de uma expansão cuidadosa do portfólio do que uma ruptura total.
A montadora mais valiosa da Europa
Com seu preço elevado e proposta inovadora, Luce representa os esforços da Ferrari para manter sua exclusividade durante as mudanças na indústria / Divulgação
Atualmente, a Ferrari se destaca como a montadora mais valiosa na Europa. Sua estratégia histórica de exclusividade extrema — produzir poucos modelos com altos preços sem visar volume — ajudou-a a evitar muitas das crises enfrentadas pelos concorrentes. Contudo, essa proteção não é absoluta.
No último ano, as ações da Ferrari caíram mais de 25%. Essa diminuição reflete uma tendência maior no setor luxuoso global: mesmo os consumidores mais ricos estão sendo afetados pela inflação e houve uma queda na demanda por produtos premium em vários mercados significativos.
<pPortanto, o lançamento do Luce ocorre em um momento crítico e carrega um enorme simbolismo para a empresa. Para a Ferrari, trata-se de uma aposta no futuro elétrico como algo tão exclusivo e desejável quanto qualquer modelo anteriormente produzido pela marca. Se essa visão será validada pelo mercado ainda permanece incerto.
