Javier Milei, novamente, encontrou em Lula um alvo prático para desviar a atenção dos problemas internos. Na terça-feira (18), o presidente argentino republicou em sua conta no X uma montagem que incluía figuras de esquerda da América Latina e da Espanha, como Lula, Dilma Rousseff, Cristina Kirchner, Gustavo Petro e Pedro Sánchez. Ele descreveu esse grupo como um suposto “tumor mais difícil de extirpar da história”. Com seu tom irônico característico, Milei comparou a imagem a um “trem fantasma” e advertiu que quem se aventurasse no “túnel” deveria temer por suas finanças.
O contexto do ataque não é aleatório. Nesta quinta-feira (20), diversas organizações sociais, sindicatos e movimentos de endividados convocaram uma marcha em Buenos Aires até o Ministério da Economia. Essa mobilização conta com a participação da Confederação Geral do Trabalho (CGT) e das centrais da CTA, que se uniram para protestar contra o recorde de endividamento da população argentina sob as políticas de austeridade implementadas por Milei. Dados do Banco Central da Argentina mostram que 5,8 milhões de pessoas estão com empréstimos pendentes ou enfrentam sérios atrasos em dívidas contraídas por instituições oficiais — uma evidência clara da diminuição do poder aquisitivo e do aumento dos custos essenciais durante a administração libertária.
Os dados econômicos corroboram o cenário que Milei tenta ofuscar com suas provocações internacionais: segundo o Instituto Nacional de Estatística e Censos (INDEC), a inflação em julho foi de 2,1%, totalizando 19,3% nos primeiros sete meses do ano e 33,8% em um ano — números que contradizem a narrativa de estabilização total promovida pelo governo. O índice de desemprego registrou 7,8% no primeiro trimestre, enquanto a subocupação alcançou 11,1%. Os próximos dados serão divulgados em 17 de setembro e são esperados com grande expectativa por analistas que já sinalizam uma desaceleração na atividade econômica.
Esse novo ataque direcionado a Lula encaixa-se em um padrão bem documentado ao longo deste ano: cada vez que cresce a pressão interna, Milei intensifica sua retórica contra o Brasil e lideranças progressistas na região. Neste mês, ele já havia se referido a Lula como “ladrão” e “corrupto” durante uma entrevista à emissora LN+, alegando que sua liberdade resultou de uma “falha no processo jurídico” — uma interpretação que ignora o fato de que o Supremo Tribunal Federal anulou as condenações da Lava Jato devido à constatação de parcialidade processual e não apenas por tecnicismos, como já apontado anteriormente. Em 10 de agosto, Milei também amplificou uma postagem do deputado americano Carlos Giménez, aliado de Trump, que insultou Lula chamando-o de “porco”.
A recente publicação com termos como “tumor” e “trem fantasma” destaca ainda mais as conexões feitas por Milei entre Lula e outros líderes historicamente criticados pela direita na América Latina, como Kirchner, Chávez e Maduro. A montagem visa agrupar todos os governos progressistas latino-americanos sob um mesmo rótulo genérico de fracasso político e econômico. Essa estratégia discursiva é conhecida por simplificar disputas complexas em uma única imagem do “inimigo comum”, sendo útil para desviar discussões sobre problemas concretos enfrentados atualmente pela Argentina.
Até o momento desta publicação, o Itamaraty não havia emitido nenhuma declaração oficial sobre este episódio recente — indicando que o governo brasileiro continua adotando uma estratégia cautelosa para evitar rupturas nos já fragilizados canais diplomáticos com a Argentina, que foram rebaixados para o nível de encarregados de negócios desde agosto. A questão que persiste é até quando essa contenção será considerada a resposta mais sensata — além disso, até quando Milei conseguirá manter nas redes sociais uma imagem forte internacionalmente diante da realidade econômica argentina evidenciada nas ruas de Buenos Aires nesta quinta.

Average Rating